8 de março: Um dia de flores e homenagens, 365 dias de violência
Feminismo causa incômodo, mas o feminicídio segue naturalizado
“Homem tenta matar ex com motosserra em Minas Gerais.”
“Homem é preso após esfaquear mulher no Distrito Federal.”
“São Paulo registra recorde de feminicídios para o mês de janeiro.”
“Feminicídios crescem 4,7% em 2025; pequenas cidades têm maiores taxas.”
“Mulher morre após ser empurrada de moto pelo namorado, na Paraíba.”
“Mulher é morta em motel na zona leste de SP; ex é preso por feminicídio.”
“Estuprada e morta em trilha de Florianópolis: caso Catarina Kasten chocou o país.”
“Homem espanca mulher com lata de cerveja e socos e ainda causa acidente, no Pará.”
“Pai é denunciado por sequestrar e matar a própria filha de 17 anos, em Santa Catarina.”
“Homem vazou fotos da ex e fez ameaça via Pix antes de matá-la em shopping.”
“Polícia encontra vídeo de mulher implorando pela vida antes de feminicídio, em Santa Catarina.”
Esses não são recortes aleatórios de um arquivo policial. São manchetes publicadas nos últimos meses, em diferentes estados, por diferentes redações. Elas se repetem com pequenas variações de cenário, mas com a mesma engrenagem: um homem que acredita ter direito sobre o corpo, o destino e a vida de uma mulher.
Neste domingo, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, flores serão entregues, homenagens serão feitas, campanhas publicitárias falarão de força e superação. Mas há uma frase que precisa atravessar qualquer celebração como um estilhaço:
"O feminismo incomoda mais que o feminicídio porque é mais tolerável a ideia de uma mulher morta do que uma mulher livre".
Em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentados. Foram 2.149 mulheres assassinadas e 4.755 que sobreviveram a tentativas de morte. Quase seis mulheres mortas por dia. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina.
O número é 38% maior do que o divulgado oficialmente pelo Ministério da Justiça. E ainda assim, segundo as pesquisadoras, pode estar abaixo da realidade. Nem toda morte é tipificada como feminicídio. Nem toda agressão vira boletim de ocorrência. Nem toda mulher consegue denunciar. O silêncio também é estatística.
Setenta e cinco por cento dos crimes aconteceram no âmbito íntimo. O agressor era companheiro, ex-companheiro, namorado, marido. Quase 60% das mortes ocorreram dentro de casa, no espaço que deveria ser abrigo e virou sentença. A maioria das vítimas tinha entre 25 e 34 anos. Muitas tinham filhos. Em 2025, ao menos 1.653 crianças ficaram órfãs depois que suas mães foram assassinadas.
O feminicídio não começa com o disparo, com a faca, com o empurrão.
Ele começa antes.
Começa no controle do celular, na humilhação disfarçada de ciúme, na ideia de posse.
Começa quando um homem diz “se não for minha, não será de mais ninguém” e parte da sociedade ainda chama isso de amor intenso.
Em Santa Catarina, os dados também desenham um cenário que não pode ser suavizado. Entre 2020 e 2025, foram mais de 445 mil registros de violência contra a mulher, segundo o Observatório da Violência Contra a Mulher da Assembleia Legislativa. São quase 200 casos por dia. Mais de oito por hora. Uma mulher pede ajuda enquanto outra tenta sobreviver.
O estado é o segundo do país com maior taxa de descumprimento de medidas protetivas. Uma em cada quatro ordens judiciais é desrespeitada. Em 85% dos feminicídios registrados, não havia boletim de ocorrência anterior contra o agressor. Não porque a violência não existisse, mas porque o medo, a dependência financeira, a vergonha e a descrença no sistema ainda falam mais alto.
Em 71% dos casos, os agressores já tinham histórico policial. O risco era previsível. A morte, não raro, anunciada.
Existe uma engrenagem cultural por trás desses números. Machismo não é uma palavra abstrata. Ele se materializa quando a autonomia feminina é vista como afronta. Quando mulheres que denunciam são desacreditadas. Quando o debate sobre igualdade de gênero causa mais irritação do que a notícia de mais uma mulher assassinada.
Também existe um papel que precisa ser assumido pelos homens. Não basta apenas dizer que não é machista ou que não é violento. A omissão também sustenta a estrutura que permite que essas violências continuem acontecendo. É preciso agir, questionar piadas que naturalizam a agressão, interromper comportamentos abusivos entre amigos, apoiar denúncias, educar filhos para a igualdade e reconhecer privilégios que por muito tempo foram tratados como naturais. Combater a violência contra a mulher não é uma pauta exclusiva das mulheres. É uma responsabilidade coletiva, e os homens precisam deixar de ser espectadores para se tornarem parte ativa dessa mudança.
Por que o feminismo incomoda tanto? Porque ele questiona privilégios. Porque ele rompe a lógica da posse. Porque ele afirma que mulher não é território, não é extensão do ego masculino, não é propriedade.
É mais confortável para uma sociedade desigual lidar com a ausência de uma mulher do que com a presença de uma mulher que exige direitos.
Neste 8 de março, não basta repetir que mulheres são fortes. Força não deveria ser pré-requisito para sobreviver. O que deveria ser básico é viver sem medo.
Se você sofre violência, procure ajuda. Em caso de emergência, ligue 190. Para denúncias anônimas, 181. Em Santa Catarina, a Polícia Civil também recebe denúncias pelo WhatsApp (48) 98844-0083. A Defensoria Pública oferece orientação gratuita.
Nenhuma mulher deveria precisar de coragem para existir. Mas enquanto existir um homem que confunda amor com posse e controle com cuidado, o Dia da Mulher será também um dia de luto.
E de denúncia.
Ato na Alesc lembra vítimas de feminicídio em SC. Clique aqui e confira.
Texto: Carolina Beux
Ilustração: Ed Carlos
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