Brasília não quer aprender com o Brasil, por Vinícius Lummertz
Artigo analisa diferença entre aprovação de governadores e avaliação do governo federal
Existe um velho ditado português que atravessou séculos e chegou intacto ao Brasil: em casa de ferreiro, espeto de pau. O ferreiro fabrica ferramentas de metal para todos, mas, na própria casa, acaba usando um espeto de madeira. Quem domina a técnica não a aplica a si mesmo. Façam o que eu digo, não façam o que eu faço.
Poucas metáforas explicam melhor um dilema persistente da política brasileira.
Pesquisas recentes indicam que apenas cerca de um terço dos brasileiros avalia positivamente o governo Lula. Levantamentos como o da Ipsos-Ipec apontam cerca de 33% de avaliação ótimo ou bom. O dado não é inédito na história presidencial brasileira, mas chama atenção quando comparado com a avaliação de muitos governos estaduais e municipais.
Em vários estados, governadores registram índices muito superiores. O governador do Paraná, Ratinho Júnior, aparece com aprovação próxima de 85%. Em Goiás, Ronaldo Caiado mantém índices de mais de 70%, dando continuidade a uma tradição de reconhecimento político no estado que já havia levado Marconi Perillo a ser eleito quatro vezes governador. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas também mantém avaliações positivas, assim como Romeu Zema, em Minas Gerais, e Jorginho Mello, em Santa Catarina.
O mesmo ocorre nas cidades. No Rio de Janeiro, Eduardo Paes mantém elevados níveis de aprovação. Em São Paulo, o atual prefeito também registra avaliação positiva. E, em milhares de municípios brasileiros, prefeitos superam 50% de aprovação e conseguem se reeleger.
Há exemplos históricos ainda mais claros. As gestões de Jaime Lerner, em Curitiba, tornaram-se referência internacional de inovação urbana. Em São Paulo, um ciclo iniciado com Franco Montoro e consolidado por Mário Covas, Geraldo Alckmin e, mais recentemente, João Doria produziu décadas de modernização administrativa. Em Santa Catarina, os governos de Luiz Henrique da Silveira redesenharam a economia estadual e ajudaram a transformar o estado em uma das economias mais dinâmicas do país.
Esse contraste revela algo importante: o Brasil não é simplesmente um país mal governado. Existem experiências bem-sucedidas nos estados e municípios.
O problema aparece com mais intensidade no plano federal. O orçamento da União ultrapassa R$ 6,25 trilhões, mas apenas cerca de R$ 89 bilhões ficam disponíveis para investimentos diretos, enquanto aproximadamente R$ 1,7 trilhão em investimentos privados permanecem travados por burocracia e licenças federais. Não faz e não deixa fazer.
Forma-se, assim, a percepção de um poder central distante, gastando recursos como se fossem infinitos e com resultados difusos.
Enquanto isso, estados e municípios operam com regras fiscais mais rígidas. A Lei de Responsabilidade Fiscal, aprovada no governo Fernando Henrique Cardoso, e o Teto de Gastos, do governo Michel Temer, além da Lei das Estatais, ajudaram a disciplinar a gestão pública, rebaixaram os juros e o país voltou a crescer com aceleradas reformas. O problema é que essa disciplina passou a ser aplicada com muito rigor nos governos subnacionais, e não no próprio governo federal, que retrocedeu, atualmente, sobre tudo o que foi feito.
A lição é clara. Em uma federação como o Brasil, o país precisa não só fazer o que professa, mas também aprender com as experiências bem-sucedidas de seus próprios estados e municípios.
Isso exige direção nacional. Quando Michel Temer assumiu a Presidência em meio a uma crise institucional, apresentou um programa claro de reformas conhecido como Ponte para o Futuro. Era um plano de governo com sentido de país.
No plano federal, onde o poder é mais distante da vida cotidiana, planos de governo tornam-se essenciais para orientar decisões e criar responsabilidade política e compromisso público.
Se estados e municípios mostram que o Brasil pode ser bem governado, o desafio nacional vai além: transformar essas posturas e experiências em referência para um projeto de país.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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