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Elen Cristina articula novas leituras sobre identidade negra
A geógrafa, artista e coordenadora de comunidades articula experiências que aproximam identidade negra, pertencimento e criação de novos espaços sociais

Elen Cristina articula novas leituras sobre identidade negra
Da periferia de São Paulo ao Sul do país, Elen traduz vivências pessoais em articulações que fortalecem comunidades. (Fotos: Acervo pessoal) ***clique para ampliar foto

Publicado em 02/12/2025

No centro de Florianópolis, onde a pressa costuma engolir silêncios e atravessar histórias sem notar suas raízes, o Novembro Negro abriu espaço para outro modo de estar no mundo. Entre arte, debate e formação, quem guiou essa travessia foi Elen Cristina, coordenadora de comunidades do Impact Hub Centro, geógrafa, artista, comunicadora e pensadora do corpo como território. “Eu sou o sonho mais lindo dos meus ancestrais”, afirma. A frase, dita com a calma de quem conhece a própria construção, sintetiza uma história que costura migração, consciência negra e a convicção de que a comunidade é o primeiro território onde se aprende a existir.

Da zona sul de São Paulo ao Sul do Brasil

Elen nasceu na periferia da zona sul paulista, em uma família mineira onde os domingos eram celebração coletiva. “Cresci em um quintal onde minha família cozinhava junto, fazia samba, dançava forró. Eu sempre vivi cercada por cultura, comida, música. Isso me constituiu”, lembra.

Foi nesse quintal que surgiu sua curiosidade por territórios, corpos e pertencimentos que mais tarde a levou à Geografia. Mas foi ao migrar para o Sul que outra camada se revelou: “No Sudeste eu estava cercada por vários corpos negros. Quando cheguei a Florianópolis, eu senti meu corpo em todos os espaços. Senti os olhares, senti as palavras. Entendi que minha pesquisa não seria só sobre cultura, mas sobre como um corpo negro sente e reage ao território.”

Essa virada é central para compreender seu trabalho atual. Migrar, para Elen, não foi apenas deslocar-se no mapa, mas ser reconfigurada pelo território que passou a habitar.

O sentir como tecnologia ancestral

Em sua pesquisa sobre Corpo Território, Elen formula uma tese que mistura geografia, filosofia e memória familiar. “O sentir é uma tecnologia ancestral”, diz. O conceito não é metáfora; é método.

“Antes de tomar uma decisão, eu paro e sinto. Pergunto ao meu corpo se aquele território me acolhe, se aquele trabalho faz sentido. Durante muitos anos eu não tive escolha, mas hoje tenho a conquista de decidir depois de sentir. É um privilégio fruto de oito anos de caminhada em Florianópolis”, afirma.

Essa inteligência do sentir guia não apenas suas decisões pessoais, mas também sua atuação profissional como gestora de comunidades e designer de experiências. É a partir dela que articula encontros, media transformações e cria ambientes onde pessoas se reconhecem e se fortalecem.

As muitas Elens e um único eixo

Geógrafa, artista, produtora cultural, comunicadora, coordenadora de comunidades. Quando perguntam como consegue ser tantas versões de si mesma, ela responde com precisão: “Eu descobri a transversalidade entre todas as Elens. Tudo tem a ver com relações. Eu sou ponte. Eu conecto pessoas. Esse é o ponto comum.”

O que poderia soar como multiplicidade caótica se transforma, na prática, em coerência. É a partir desse eixo que conduz projetos, facilita processos e organiza experiências coletivas.

 

O Novembro Negro conduzido por Elen aproximou público e comunidade negra, criando conexões e reflexões sobre presença, identidade e construção social na cidade.

 

Semana Novembro Negro ocupa o centro

Em 2025, Elen coordenou a programação do Novembro Negro no Impact Hub Centro, evento que transformou o espaço corporativo em palco para corpos, narrativas e criações negras. “Eu não poderia deixar de colocar nossa unidade a serviço da comunidade negra, criativa, periférica. Era uma responsabilidade e uma alegria”, afirma.

A construção da programação foi coletiva, em parceria com a MAF Economia Criativa e Lívia de Pelegrin, membro da comunidade. “Trouxemos mais de 50 pessoas no primeiro dia, sendo 80% corpos negros. Isso é muito relevante. É olhar para o coração da cidade e afirmar que esses corpos pertencem a esse território.”

A mostra Ouro Urbano, que ocupou o hub durante todo o mês, levou arte negra para dentro de um ambiente acostumado a dinâmicas corporativas. “Os membros que talvez nunca iriam a uma exposição, foram invadidos pela arte desses artistas. Isso ressignifica o território”, destaca.

Hub Talks e a construção do território negro em Florianópolis

Um dos pontos altos da programação foi o Hub Talks “Cultura negra popular e a construção do território”, com Adriana (Ialequê), Negro Rude e Bea Delfino. “Foi riquíssimo. A cultura negra popular em Florianópolis é muito resistente, construída dia após dia. O território de Florianópolis foi moldado por potência negra, e precisamos lembrar dessas histórias para evitar o apagamento”, afirma.

Para Elen, reconhecer essa construção é também reconhecer que “nada acontece sozinho. Tudo é comunidade”.

Pertencimento como missão

Quando perguntada sobre sua missão como mulher negra, artista e gestora, sua resposta é imediata: “Minha missão é honrar quem veio antes. Honrar minha ancestralidade. Lembrar todos os dias do quintal que me construiu.” A fala não é performance, é norte. Cada projeto que conduz carrega essa camada de sentido: conectar, reconhecer, fortalecer.

Elen conclui com um conselho que devolve a conversa ao início, ao corpo que sente, que carrega história, que ocupa território. “Cuide do seu corpo. Se alimente, se exercite, beba água, cuide da mente, da espiritualidade. Quando cuidamos do corpo, cuidamos do território. E só então conseguimos entender onde nosso corpo quer estar e como nossa ancestralidade nos guia.”

Uma geógrafa que desenha mundos possíveis

No Novembro Negro do Impact Hub, a presença de Elen foi gesto político e afetivo. Foi a afirmação de que territórios se transformam quando corpos negros ocupam o centro, constroem narrativas e convocam outras presenças para se reconhecer.

Afinal, como ela mesma diz, “a resposta está sempre na comunidade”.

 

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Da redação

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