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O combo 2025–2026, por Vinícius Lummertz
Crises domésticas, cenário internacional tenso e eleições prolongam a sensação de instabilidade no país

O combo 2025–2026, por Vinícius Lummertz
A previsibilidade institucional aparece como condição central para retomar confiança e investimentos. (Charge: Ed Carlos)

Publicado em 05/01/2026

Na virada para 2026, o Brasil não está fechando um ano. Está emendando um ciclo. 2025 e 2026 viraram um combo, uma combinação de anos que se comporta como um contínuo. Por aqui, esse “ano alongado” só termina com o sufrágio e a apuração das urnas. É um calendário psicológico, não apenas eleitoral: a sensação de disputa permanente e de que, daqui em diante, vale tudo a qualquer preço. Como advertiu Carl von Clausewitz, a política é a continuação da guerra por outros meios. Nesse sentido, a América Latina é um continente em disputa.

Ray Dalio, um dos maiores gestores de hedge funds do mundo, ajuda a enxergar o mecanismo por trás do ruído. Para ele, populismos de esquerda ou de direita não são ideologia: são reação. Explodem quando a pessoa comum conclui que o sistema foi capturado, porque a distância entre riqueza e oportunidades aumenta, conflitos de valores se intensificam e o Estado deixa de funcionar para a maioria. A política deixa de ser sobre produzir mais e vira uma guerra sobre quem fica com o que já existe. Nos EUA, porque a economia cresce e não redistribui. No Brasil, porque o país não investe e não deixa investir.

Em nosso país, o fim de 2025 ganhou um símbolo que transformou a virada do ano numa sequência de audiências e manchetes: a crise do Banco Master. O caso virou teste de supervisão bancária, segurança jurídica e, sobretudo, confiança institucional. Depois da liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, o tema escalou ao debate público e ao Judiciário, alimentando a percepção de choque entre poderes e de imprevisibilidade regulatória. O efeito colateral é direto: se ninguém sabe qual regra valerá amanhã, investimento e poupança recuam hoje. O Brasil estaria na lona não fossem as exportações de commodities.

Mas os primeiros dias de 2026 acrescentaram um capítulo que escancara o combo. Em 3 de janeiro, os Estados Unidos conduziram uma operação na Venezuela e capturaram Nicolás Maduro, levando-o aos EUA para responder a acusações criminais. A Casa Branca  enquadrou  o episódio como “interesse nacional” e aplicação da lei; governos europeus e analistas já apontaram o risco maior: o precedente de força que atropela soberania e contamina o sistema internacional. A leitura “regional” é confortável. A leitura estratégica é incômoda . 

A cobertura tende a reduzir tudo a petróleo, narcotráfico e democracia, como se fosse apenas um capítulo da crônica latino-americana. Só que há um contorno menos palatável, e por isso menos debatido: segurança nacional. No fim de dezembro, o Tesouro americano sancionou indivíduos e entidades ligados a um suposto eixo Irã–Venezuela de transferência e produção de drones e itens associados. Some-se a isso a informação, atribuída à inteligência ucraniana, de uma missão russa com mais de 120 militares no país para treinamento e assessoria. E, no pano de fundo, a disputa por minerais críticos e rotas clandestinas. Não é “só Caracas”. É a multipolaridade testando os limites no quintal histórico de Washington.

Se essas camadas forem, mesmo que parcialmente, verdadeiras, elas lembram por que crises “periféricas” podem virar crises centrais. Em 1962, o choque dos mísseis em Cuba não foi “sobre Cuba”. Foi sobre alcance, dissuasão, medo e cálculo de risco. O que muda agora é o método: menos ogivas, mais drones, inteligência, sanções, mineração e presença indireta. E muda também o árbitro: a engrenagem multilateral que nasceu no pós-guerra já não resolve como antes. Saímos do bipolar, passamos pelo unipolar e chegamos ao multipolar, com potências redesenhando zonas de influência por bases regionais.

Na Europa, a guerra da Ucrânia segue como relógio que não para. No Indo-Pacífico, Taiwan e a corrida de defesa continuam reescrevendo a arquitetura do pós-guerra em tempo real. E, na geoeconomia, o mundo se rearma e se tarifa: comércio vira política doméstica, e política doméstica vira risco externo. O ano “acabou” no calendário, mas não na realidade.

É por isso que 2025 não terminou. Ele apenas mudou de nome e entrou em 2026 com conflitos engatilhados, disputas internas abertas e uma instabilidade global que invade a política de cada país. A pergunta do combo 25–26 é se aprenderemos a quebrar o ciclo antes que ele nos quebre.

Para nós, a saída não é moralismo nem gritaria digital. É previsibilidade: transparência, punição rápida a privilégios e corrupção, responsabilidade fiscal com foco em mobilidade social e um Estado que volte a entregar o básico. E, sobretudo, consciência de escala: o Brasil é um país de importância global e paga preço global quando se fragiliza por dentro.

Por isso, 2025 só acaba mesmo nas urnas: 4 de outubro de 2026 e, se houver segundo turno, 25 de outubro. Até lá, será preciso um amadurecimento rápido sobre o papel do Brasil perante o mundo e uma dose incomum de inteligência, moderação e serenidade. Não podemos nos enfraquecer externamente por divisões internas simplórias. Meu desejo para o ano novo é simples: exigir planos — e votar como quem entende que, no combo 25–26, o Brasil não disputa apenas governo. Disputa posição no mundo.

 

 

 

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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