A Saúde do Mundo, por Denise Evangelista
Conhecer-se profundamente amplia nossa liberdade e capacidade de escolher caminhos saudáveis
Aprendi tanto com o teatro quanto com a psicologia que todo comportamento tem um corpo e uma história. Para Freud, o eu é, primeiro e acima de tudo, um eu corporal. O comportamento é uma manifestação das tendências desse “corpo” somadas à história e juntos, formam uma intersecção. A relação entre o corpo, os acontecimentos e as condições externas, resulta naquilo que é manifesto e que denominamos de comportamento.
Quando uma criança nasce — com ela, suas tendências genéticas e determinadas características, encontra um tempo histórico, uma cultura, uma pátria, um lugar, uma família com suas próprias condições espaço-temporais.
Quando um ator entra em contato pela primeira vez com um personagem, ele o faz, muito comumente, através da palavra. O ator percorre, com o diretor, o rastro da palavra para dar vida e consistência a esse ser que vai “encarnar”. Nesse processo, ator e diretor vão explorar, a partir do que está dito, ou do que surge das improvisações, nuances que apontam para diferentes possibilidades interpretativas; assim como estarão atentos à interação com os demais personagens. Vão colocar em relevo suas emoções, o contexto social e as circunstâncias da história. Irão descobrir ou lhe conferir crenças, valores e posturas. Seguindo as pistas das palavras, o ator vai construindo seu papel, costurando as lacunas com sua própria imaginação, sua percepção e seu próprio jeito de interpretar.
É o que acontece também, no contexto da psicoterapia. Enquanto o ator vai contar uma história de um personagem, o paciente vai contar e recontar, em primeira pessoa, a própria história; é ao mesmo tempo uma escrita e uma reescrita, um processo de elaboração. Paciente e psicoterapeuta vão descortinar sentimentos, enfrentar medos, lidar com contradições. Juntos vão “reconstituindo” a história do primeiro, as condições nas quais cresceu, suas circunstâncias presentes, seus conflitos internos, como percebe a si mesmo, os outros e o mundo. Vão fazer conexões, buscar sentido e direção.
Apesar de a maior parte desse caldeirão (cultura, pátria, tempo histórico, lugar, família), pelo menos aparentemente, não ser resultado de escolhas nossas, incluindo o nosso próprio organismo, na medida do nosso amadurecimento, paulatinamente, desenvolvemos habilidades, ampliamos nossas capacidades, vamos ganhando autonomia e consequentemente aumentamos nossa parcela de responsabilidade sobre o meio e sobre nós mesmos.
Conhecer cada parte que nos constitui nos auxilia a exercer com mais consciência, não tanto aquilo que somos, mas o como podemos ser no mundo. Através do autoconhecimento podemos dar direção ao que pulsa dentro de nós e que ainda não tem “nome”. Quanto mais mergulhamos em nós mesmos e no mundo, do qual somos parte insubstituível, mais condições teremos de fazer escolhas, respeitar nossos limites e conquistar maior consciência sobre os nossos direitos. Ao mesmo tempo, vamos desenvolvendo um olhar menos preconceituoso e mais compassivo.
Conhecimento e autoconhecimento ampliam as nossas possibilidades para deixarmos de ser meros reprodutores inconscientes de aspectos obsoletos da nossa cultura e de tempos idos. Ganhamos neste processo a possibilidade de sermos autores de um mundo mais saudável para nós, para todos que nos rodeiam e para aqueles que vierem depois de nós. Conhecer a nós mesmos, como nos aconselhou Sócrates, na sua Maiêutica, também conhecida como Parto dos Espíritos, permite que sejamos mais criadores e menos repetidores, potencializando nossa verdadeira liberdade.
Processos psíquicos se revelam como processos químicos, emocionais e comportamentais, os quais ocorrem simultaneamente. Podem ter origem tanto de dentro para fora como de fora para dentro, ou ambas as coisas. São manifestações indissociáveis, afetando positiva ou negativamente nosso funcionamento e o nosso ambiente, com novas repercussões e assim por diante. Por isso não há que se falar em corpo e mente, mas em um continuum corpo-mente-meio.
Nossos hábitos, nossas experiências, boas e ruins, nossas leituras, nossas relações, estímulos de toda ordem contribuem para a formação, transformação e também para a manutenção das nossas percepções. Rotinas relativas ao autocuidado podem ser decisivas para o nosso bem-estar e o bem-estar dos demais. A atenção ao todo corpo-mente-meio precisa andar de mãos dadas, com o efetivo investimento em todas as partes. Uma alimentação saudável, exercícios físicos, atenção para com os nossos relacionamentos, bem como aos aspectos emocionais envolvidos, são tão importantes quanto políticas públicas voltadas à saúde global, o que inclui cuidados com o meio ambiente, educação, distribuição de renda, boas condições de trabalho etc, como sabemos.
O comportamento de uma pessoa é um pequeno traço aparente, relativo aos seus atos, mas traz em si sua história em construção e a dos seus antepassados — estrada que continua sendo desenhada e redesenhada todos os dias, com mais ou menos condições e consciência e pela qual somos todos responsáveis: nossa saúde é a saúde do mundo.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
Para ler outras crônicas de Denise Evangelista Vieira, nossa brilhante colunista clique AQUI
Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI
Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.
Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!
Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp
Comentários via Whats: (48) 99162 8045
Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
Ver outros artigos escritos?
21° | Nublado