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Além da geometria, por Luzia Almeida
Um reencontro emocionante mostra que o legado do conhecimento ultrapassa as salas de aula

Além da geometria, por Luzia Almeida
A narrativa de Luzia Almeida mostra que o ensino vai muito além da geometria: é sobre afetos e continuidade. (Foto: Pixabay)

Publicado em 15/10/2025

Décio percorria os corredores do supermercado, ele ainda não estava familiarizado com nada na nova cidade que elegeu para viver como aposentado: foram trinta e cinco anos de magistério. “Trinta e cinco anos!...”, pensava, “E nada além disso.”

A aposentadoria chegou junto com o divórcio... “quem diria que Adélia pediria o divórcio?!...”, ele se culpava por isso, mas Adélia sempre foi muito segura de si mesma e ele achava que tudo estava bem até que ela disse: “Não quero viver a sua aposentaria... quero viver minha própria vida. Seja feliz!”, ele se lembrava das palavras dela, “mas como posso ser feliz sozinho?”

Ele parou para verificar o preço do leite, pegou dois pacotes e segui no corredor em busca do café. Olhou a lista, ainda faltava pão, queijo, tomate, cebola... Ele não tinha pressa, e seguindo observando os produtos nas prateleiras também pensava no próximo livro que leria: acabara de ler “Dom Quixote” e, pensando numa cena do livro, esboçou um sorriso. Estava exausto da geometria de tantos anos. É verdade que adorava a Matemática, mas nesses tempos de abandono e de solidão resolveu abraçar a Literatura. Sim, à tarde ele passaria na livraria e escolheria outro clássico. Enquanto andava olhando os preços dos produtos, ia pensando nos romances de Graciliano Ramos. O que escolheria? Tempo tinha para ler: sem ninguém para visitar e sem ninguém para visitá-lo que sua mulher não quis ter filhos. Os livros passaram a ser seus amigos. E só. Chegou ao final do corredor e parou para pegar um pacote de café, mas não encontrou a marca de que gostava, levou outra. Tinha acabado de colocar o café no carrinho quando um homem com um sorriso no rosto surgiu à sua frente:

— Professor Décio!

Décio olhou, mas não reconheceu o homem:

— Sim.

O homem abriu os braços para abraçá-lo:

— Professor, que alegria!...

Décio ficou sem jeito diante de tanta felicidade. O homem continuou:

— Professor, segui seus conselhos... e quer saber? Fiz faculdade, passei num concurso público...

Décio procurava na memória aquele homem que havia sido seu aluno.

— O senhor deu um norte na minha vida...

Décio sorriu diante de tanto entusiasmo, mas não sabia o que dizer.

O homem continuou:

— Nem vou perguntar se o senhor se lembra de mim.

Décio sorriu e disse sem jeito:

— Não, não me lembro.

— Sou o Rodrigo. O senhor foi meu professor no ensino médio.

Décio perguntou:

— E você fez faculdade?

— Engenharia.

— Meus parabéns!...

— Olhe! Tudo devo ao senhor!...

Décio sorriu diante de tanta generosidade:

— Quê isso!

— Não acredita?!... Foi depois de uma briga que tive com o Lucas. O senhor levou a gente pra conversar numa sala... O senhor disse... nunca vou me esquecer!... “O que vocês pensam que estão fazendo? A vida é feita de etapas e cada etapa exige preparação. Hoje vocês estão na escola, mas precisam se preparar para entrar na faculdade e o que vocês têm feito? As notas de vocês não são boas...”. O senhor nem falou nada sobre a briga que tivemos.

Décio lembrou-se dessa conversa que tivera com os adolescentes, mas o homem barbado que estava a sua frente nada tinha do adolescente assustado da escola. Ele disse:

— Lembro-me de você, Rodrigo...

Nesse momento uma mulher com um menino no colo vai ao encontro deles. Ela sorri para o professor, estende a mão dizendo:

— Muito prazer! Meu marido fala muito do senhor.

Décio não entendeu direito essas palavras. Rodrigo pegou o filho nos braços e disse pro menino:

— Veja, este aqui é o seu avô. Diga seu nome pra ele.

E o menino diz:

— Meu nome é Décio... eu já sei contar até dez...

Uma onda de ternura passou e derrubou as frustrações paternas do professor. Ele tinha um neto e nem sabia, só conseguiu dizer:

— Mas que coincidência!...

— Coincidência nenhuma — disse Rodrigo — já faz tempo que eu estava procurando o senhor. Finalmente o encontrei. Estivemos no seu apartamento e a empregada disse que o senhor estaria aqui.

A onda de ternura que havia passado, tornou a voltar e, desta vez, trouxe-lhe um filho.

 

 

 

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Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


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