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De Perto Ninguém é Normal, por Denise Evangelista Vieira
Ao reconhecer nossas próprias feridas e imperfeições, ampliamos a capacidade de compreender quem está ao nosso redor

De Perto Ninguém é Normal, por Denise Evangelista Vieira
A ideia de normalidade não é absoluta: ela muda conforme a cultura, o tempo e os valores de cada grupo. (Foto: Canva)

Publicado em 04/09/2026

“As coisas que o homem conhece verdadeiramente, não podem ser comparadas em número com as que lhes são desconhecidas.”

Shan Hai King (Livro das Terras e Mares)



 

Vamos pular as considerações sobre o que é ser normal. Vamos nos ater, apenas, a uma característica, a de que ser normal é estar o mais perto possível do que é valorizado por uma cultura ou por um grupo, num determinado período histórico.   O normal, frequentemente, é confundido com um ideal, uma ideia que fazemos, a partir de crenças e valores, sobre aquele que possui as melhores condições, dentro de uma realidade específica; ou que reúne características que pareçam coerentes dentro daquele contexto. Observemos aí uma das raízes de nossos preconceitos: associamos características pessoais ao que de melhor ou de pior existe num determinado cenário.  Assim, qualquer um que fuja  do que é esperado, tendemos a enxergá-lo como desviante. 

Para a Gestalt, Escola da Psicologia,  a nossa percepção tem a tendência de dar uma boa forma, um fechamento para imagens, ideias e acontecimentos que se apresentam como novidade. Ou seja, tendemos a tirar conclusões a partir de alguns elementos. E, geralmente, acabamos por nos contentar com “verdades” que não destoam muito daquilo que fundamenta o nosso psiquismo, do que nos é, emocionalmente, familiar.  

Para nos mantermos curiosos e insatisfeitos temos que preservar algo que a criança possui naturalmente, que é uma abertura para o novo e o desejo de conhecer; uma capacidade de espantar-se, de querer saber por que, de não se contentar com a primeira resposta. Então, é necessário também que conservemos a humildade da criança, a naturalidade de não saber, para que tenhamos coragem de continuar nos perguntando. Por isso é tão importante não impor à criança determinadas verdades através de violências, para que ela possa se sentir segura para continuar suas investigações. Desta forma, o que é natural nela, o desejo de compreender, possa sobreviver sem tanta ansiedade na vida adulta.

Caetano Veloso sentenciou, na sua canção Vaca Profana, que “de perto ninguém é normal.” É preciso continuar curioso e humilde para descobrir o outro, ir além das aparências, e dos nossos próprios preconceitos.  É também essa abertura que é capaz de desenhar diálogos. Ninguém se dispõe a refletir em conjunto com interlocutores que carreguem pedras na mão. 

Todos nós possuímos “falhas”, “imperfeições”, “marcas” e só com delicadeza é que podemos enfrentá-las, sozinhos ou acompanhados. Ao enfrentarmos, gentilmente, nossas feridas é que nos tornamos mais capazes de enxergar os outros e a realidade. Ao restaurar nossas “imperfeições” vamos gradativamente dispensando muitas das lentes que nos foram impostas e que, ao invés de nos fazer ver, nos impedem de aproveitar os encontros e os acontecimentos, dos aparentemente banais até os que consideramos extraordinários. 

Não há vida sem sofrimento. Quando nos dispomos a conhecer de fato as pessoas, a refletir sobre seus modos de ver, de sentir e de interpretar o mundo, bem como os acontecimentos que marcaram suas vidas, vamos nos deparar com situações dolorosas em algum ponto de suas trajetórias; às vezes, os sofrimentos estão pulverizados ao longo do tempo, como quando, por exemplo, alguém cresce em ambientes cheios de tensão; às vezes há acontecimentos específicos, com potencial de desestabilizar ou romper estruturas psíquicas. Todos nós sabemos que feridas e fraturas precisam ser tratadas. Que é possível viver com cicatrizes, mas que feridas abertas e fraturas expostas geram mais sofrimento.  

Kintsugi (kin = ouro e tsugi = emenda) é uma técnica japonesa de restaurar cerâmicas e porcelanas quebradas. As peças não são jogadas fora, elas são transformadas. Ao invés de esconder as rachaduras, a técnica revela uma nova beleza, tornando a peça original e única. O tratamento das nossas feridas também nos dá esse poder, o de nos reinventarmos. Conhecendo nossa subjetividade, ou partes dela, temos a possibilidade de escolher, com mais consciência, como desejamos ser no mundo e nas nossas relações, aumentando nossa capacidade de trilhar caminhos que contemplem nossas verdadeiras necessidades. É reconhecendo não saber que nos tornamos aptos a descobrir. 

 

Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.

 

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Sobre o autor

Denise Evangelista Vieira

Denise Evangelista Vieira

Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.


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