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De “1984” ao sorriso negado, por Luzia Almeida
A linguagem surge como instrumento central de dominação, controle e perda de identidade cultural

De “1984” ao sorriso negado, por Luzia Almeida
Ao relacionar Orwell e Oswald de Andrade, o texto destaca como a destruição das palavras também representa a destruição da identidade de um povo. (Foto: Pixabay)

Publicado em 16/01/2026

O que mais chama a atenção no romance “1984” de George Orwell, publicado em 1949, é a conexão que ele faz com o colonialismo português no Brasil, principalmente no que se refere ao apagamento da língua Tupi. Essa aculturação trazida pelos portugueses sofreu forte crítica do poeta modernista Oswald de Andrade quando escreveu o poema “Erro de português”, observe: “Quando o português chegou / debaixo de uma bruta chuva / vestiu o índio / que pena! / fosse uma manhã de sol / o índio tinha despido o português”. Essa crítica de Oswald de Andrade que agrega cultura e linguagem é um norte para quem quer entender a obra de Orwell.

A dominação ou a manipulação passa pela linguagem. Quando o personagem Syme (da obra de Orwell) é manipulado, não vê perigo em apagar uma língua, pelo contrário, ele acha interessante: “— É uma coisa linda, a destruição das palavras. Claro que o maior desperdício está nos verbos e adjetivos, mas há centenas de substantivos que podem ser dispensados também. Não se trata só dos sinônimos, tem também os antônimos. Afinal, qual é a justificativa para uma palavra ser apenas o oposto de outra?”. A destruição das palavras de uma língua implica também a destruição da identidade de um povo: esta é uma das facetas da distopia. E qual seria a resistência de um povo que passa por tamanha tragédia? Como lutar contra o Partido? Orwell não oferece respostas na sua obra, ele abre uma profunda reflexão sobre “O Grande Irmão” e o controle totalitário.

Winston Smith e Júlia (personagens da obra) tentaram romper a barreira da opressão, mas foram capturados: “no meio do caminho” havia as teletelas. Foram torturados com elementos que fogem da nossa imaginação. Eles tentaram romper com o Partido sem êxito, é verdade! Mas eles conseguiram conduzir o romance e fizeram germinar na mente dos leitores uma pálida esperança de vitória. A luta deles foi uma marca de resistência e ousadia contra um sistema que se tornou poderoso demais. Eles sabiam que existia um inimigo com quem faziam oposição. Reconhecer que há um inimigo é o primeiro ataque porque se inimigo há e você não o reconhece, então a sua vulnerabilidade é de causar desespero. Com dor e por causa da dor eles se traíram e se adequaram ao Partido, infelizmente. Neste ponto, eu gostaria que o romance apresentasse algo de fantástico, uma vitória esmagadora deles contra o Partido e todas as teletelas desligadas para sempre. Esse mundo de fantasia, o autor não nos ofereceu para que os leitores não dormissem com um sorriso no rosto enquanto a sociedade atual acumula tantos partidos.

Do colonialismo português aos nossos dias, muitas palavras foram acrescentadas ao dicionário de Língua Portuguesa, alguém percebeu?

 

 

 

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Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


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