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Make Love, por Denise Evangelista Vieira
Reflexões sobre como o medo e a violência podem nos afastar de nós mesmos e dos outros

Make Love, por Denise Evangelista Vieira
O medo pode nos colocar em estado permanente de defesa, enquanto o amor exige justamente o movimento contrário: escuta, abertura e disposição para enxergar a nós mesmos e aos outros com mais ternura. (Foto: Canva)

Publicado em 17/04/2026

“É preciso amar para não adoecer.”

Freud, 1914


 

Há uma lenda que explica por que duas pessoas gritam quando estão com raiva. Magoadas, diz a lenda, gritam porque seus corações estão distantes, gritam na tentativa de se fazerem ouvir. 

Martha Medeiros, na sua crônica Make Love, publicada em março de 2022, diz: “façamos amor com a desenvoltura de um acrobata que desvia do tiro, com a flexibilidade de um contorcionista, façamos amor como os dançarinos do tango (...) façamos amor com a boca, as pernas, os olhos e o coração pra fora do peito. Que o prazer que inflamamos em nossas trincheiras íntimas atinja em cheio a humanidade.”

O fato é que todos nós adoecemos quando, por uma razão ou outra, nos sentimos impedidos de amar. Adoecemos quando nos fixamos em padrões gerados pelo medo; quando comportamo-nos como esculturas que se movem empunhando armas, como se estivéssemos em constante estado de alerta, nos defendendo a todo momento de algo, mesmo na ausência desse algo. Como nos lembrou Chico Buarque, em As Caravanas,  “filha do medo, a raiva é mãe da covardia”. O  medo advém das múltiplas formas de violência. E a violência é a garantia de adoecimento continuado.  

Adoecemos quando perpetuamos nossas “faltas”, como meros reprodutores, passando para frente aquilo que nos fere e que ainda não aprendemos a ouvir. Muitos são os critérios diagnósticos, mas perceber onde há violência é um bom start para descobrirmos as origens dos desequilíbrios individuais e coletivos.  Há um provérbio que diz que um coração ofendido é mais inacessível do que uma cidade fortificada. Aprender a compreender nossa própria subjetividade, a escutar nosso próprio coração,  é essencial para que possamos ouvir o outro verdadeiramente, para que nos tornemos pessoas, de fato, empáticas. Quando não nos “ouvimos” em profundidade, quando nos tornamos inacessíveis a nós próprios,  como quem tem uma cidade fortificada dentro de si, vivemos a forma mais dilacerante de solidão. 

Tornar-se capaz de fazer amor com a vida, de abandonar as grandes e as micro-violências, olhar o outro com ternura e compaixão requer que quebremos nossos muros internos, que nos exercitemos,  que nos tornemos mais flexíveis, para que assim possamos ouvir a humanidade que mora em todos nós. 

Para Jung “a vida adulta é, na verdade, um processo constante e desafiador de se tornar quem você realmente é, um trabalho que exige que olhemos para dentro de nós mesmos (para as sombras e os pedaços que escondemos) e os integremos, reconhecendo que a totalidade de uma pessoa não está na perfeição, mas sim na coragem de acolher todas as suas partes contraditórias e imperfeitas.” 

Olhar para dentro significa também aprender a colocar, cuidadosamente, compressas sobre as nossas feridas, a nos tratarmos com carinho e delicadeza e dessa forma deixarmos de ser esculturas, externamente gélidas, empunhando armas, que se movem por aí.  Jung nos diz:  “somente ao aceitar e compreender esses aspectos rejeitados é que podemos evitar projetá-los de forma destrutiva nos outros.” Aceitemos o convite de Martha Medeiros,  façamos amor para que, assim, como ela  também nos diz  em Make Love, possamos tocar o sublime.

 

 

 

Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.

 

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Sobre o autor

Denise Evangelista Vieira

Denise Evangelista Vieira

Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.


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