Hassis revela memórias inéditas em exposição gratuita
Com entrada gratuita, em Florianópolis (SC), o Instituto Collaço Paulo – Centro de Arte e Educação abre na próxima terça-feira, dia 29, a exposição “Hassis – Diários Afetivos” que reúne 44 obras da Coleção Collaço Paulo, compostas por pinturas, objeto e dois registros audiovisuais. Hassis (1926-2001), um importante pintor, cuja história pessoal está marcada pela constituição do modernismo em Santa Catarina com ativismo no Grupo Sul, no Grupo de Artistas Plásticos de Florianópolis (GAPF) e participação expressiva na Associação Catarinense de Artistas Plásticos (Acap).
A data inaugural da mostra tem caráter celebrativo por duas razões. Primeiro, porque a iniciativa se insere no programa “Hassis 100 Anos” que em 2026 se compõe de homenagens e mostras em diferentes pontos institucionais de Florianópolis; depois por ocorrer quase na data do aniversário do instituto que completa quatro anos de atuação no dia 31 de julho.
Outro motivo, é a primeira curadoria de Alice Viana Bononi, que assumiu o papel de curadora-chefe da instituição em fevereiro deste ano. A sua imersão na Coleção Collaço Paulo valoriza um dos núcleos que permite pensar, de modo inédito, a gênese do colecionismo iniciado há cerca de 40 anos pelo casal Jeanine Gondin Paulo e Marcelo Collaço Paulo. “Antes de se tornar acervo, toda coleção nasce de afinidades, descobertas e afetos”, escreve Bononi que chama a atenção para o estreitamento familiar, o convívio entre Hassis e Marcelo, tio e sobrinho, “um consórcio duradouro e afetivo com o colecionismo”. Curioso e interessado, visitante constante do ateliê na praia de Itaguaçu, o jovem é presenteado pelo artista, gesto determinante no seu futuro.
“Por conhecer Martinho de Haro, Hassis, Vecchietti, ter a oportunidade de conviver com eles, mesmo sendo muito jovem, isso acabou aumentando não só o meu desejo de ver, mas também de ter arte, que é o desejo de todo o colecionador”, conta Marcelo Collaço Paulo que guarda vívidas lembranças e conversas.
Embora a Coleção Collaço Paulo seja a estrutura vital do instituto, prestando-se aos propósitos arte educativos, ela nunca esteve em evidência por si só. Nas sete primeiras exposições realizadas desde 2022, as obras aparecem em primeiro plano. Neste momento, o conceito curatorial torna a Coleção Collaço Paulo quase como uma protagonista que convida a pensar como o interesse pela arte consegue transformar uma vida a partir do colecionismo. Hassis está presente neste prelúdio e a mostra inclui obras presenteada por ele ao sobrinho, como em “Bar II” (1973), na técnica em acrílico sobre duratex, ambiente no qual um marinheiro está representado ao lado de uma mulher que o abraça.
Conceito curatorial
As 46 obras, em diferentes abordagens temáticas e técnicas – óleo sobre tela, eucatex e duratex, guache, acrílica, lápis de cera, aquarela, dois audiovisuais, entre outras -, a mostra “Hassis – Diários Afetivos” envolve um arco temporal entre o fim dos anos 1950 até meados de 1980. A exposição inclui dois curtas no formato Super-8 feitos pelo artista e um objeto. Além dos aspectos pessoais, como o registro do pátio da própria moradia ou da praia de Itaguaçu, a curadora Alice Viana Bononi entende que, ao longo do tempo, “essas imagens revelam uma Florianópolis vivida — seus bares, festas, paisagens e personagens —, transformada em criação visual pela experiência cotidiana do artista. Ao mesmo tempo, essas obras carregam uma dimensão menos visível: as camadas de memória que atravessam sua preservação no âmbito familiar”.
Em cinco salas, a primeira apresenta o conceito curatorial e um mosaico no qual está o primeiro quadro presenteado pelo tio ao sobrinho, além de fotos pertencentes à Fundação Hassis, e nas demais – Cenas Urbanas, O Porto e seus Personagens, A Orla e seus Motivos e Ritos e Espetáculos – Bononi tece vida e obra, costura com depoimentos a memória das filhas Leilah e Luciana. Chama a atenção o autorretrato “Hassis III” (1967), um óleo sobre tela, feito aos 41 anos. Pelo olhar curatorial é possível reafirmar a importância deste que é um dos mais ativos da cena modernista de Santa Catarina, na singularidade de um radar capaz de antecipar o tempo e em um ativismo pautado pela paixão da inovação e cuidadoso acompanhamento da agenda artística de Florianópolis.
Da redação
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