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Escola de SC usa Minecraft para incluir alunos neurodivergentes

Escola de SC usa Minecraft para incluir alunos neurodivergentes
Gustavo, Alice e Rafael Kuerten com os professores Lucimara e João Paulo na entrega do Prêmio IGK. (Foto: Fernando Willadino)

Publicado em 08/10/2026

Há um ano, uma escola de Sombrio, em Santa Catarina, utiliza o jogo online Minecraft como ferramenta de aprendizagem, unindo tecnologia, criatividade e inclusão para alunos com deficiência. O projeto Educar em Blocos, idealizado pelos professores Lucimara Ferraz Santos e João Paulo Santos da Silva, foi homenageado em agosto pelo Instituto Guga Kuerten na edição de 2026 do Prêmio IGK.

O Minecraft é um jogo para plataformas digitais (celulares e computador) cujo design é composto por blocos tridimensionais. Os usuários podem jogar em modos de sobrevivência e criativo, criando estruturas com os múltiplos blocos. O jogo permite se conectar com outros usuários, no modo multiplayer.

Educar em Blocos

O Educar em Blocos nasceu em 2025 dentro do Atendimento Educacional Especializado (AEE) da Escola de Ensino Básico Normélio Cunha e também contempla estudantes do Atendimento Educacional Especializado para Deficientes Visuais (AEEDV) da Escola de Ensino Fundamental Prof. Mota Pires.

Psicopedagoga e professora do AEE da Normélio Cunha, Lucimara Ferraz utilizava alguns jogos de computador em seus atendimentos, como forma de estimular habilidades como memória e atenção. Seu marido, João Paulo Santos, já havia usado o Minecraft de forma semelhante em 2015, na Escola Alcides de Souza Pereira. Nesse projeto, os alunos construíam suas casas e pontos da cidade dentro do jogo.

É quando Lucimara conta para seus alunos do AEE essa história que a empolgação começa. “Nós temos que fazer também!”, diziam as crianças, os olhos brilhando. “A gente tem que construir a escola!”. Lucimara conta que chegou em casa naquele dia e disse ao marido: “João, agora não tem como voltar atrás”.

Sob a coordenação de Lucimara, os próprios alunos do AEE começaram a organizar como o projeto funcionaria. Ficou decidido que seria colado um cartaz no meio do corredor da escola — um local estratégico definido pelas crianças para alcançar o maior número de alunos — com a pergunta “O que é o Minecraft para você?” e as informações de inscrição.

24 horas depois, o cartaz foi retirado e a equipe começou a analisar criteriosamente as inscrições. Os alunos que deram as melhores respostas foram chamados para integrar o projeto, já com o nome de Educar em Blocos. O critério de seleção? O grau de paixão das respostas. “Tem que ser emocionante, professora”, diziam para Lucimara. Assim, outros alunos da escola se juntaram aos cinco membros iniciais do AEE.

No começo, João Paulo pretendia apenas auxiliar Lucimara com a parte tecnológica do projeto, já que não via como inserir as crianças com deficiência visual com quem trabalha no AEEDV. Porém, logo percebeu que algumas alunas já consumiam conteúdos relacionados ao Minecraft em plataformas como o YouTube, e que, com o auxílio certo, poderiam se aventurar no jogo — ainda que as ferramentas de acessibilidade dele sejam limitadas. Assim, o projeto foi integrado ao AEEDV.

A partir do Educar em Blocos, os alunos exercitam a criatividade, a gestão de tempo, a memória e também a comunicação interpessoal. Mas, com o tempo, o projeto se tornou ainda mais importante. Os integrantes viraram uma comunidade, com as próprias famílias dos alunos se movimentando para ajudarem uns aos outros. Para alguns alunos, o projeto também se tornou um lugar seguro. Um deles já declarou: “Eu não vejo mais minha vida sem o Educar em Blocos”.

 

Integrantes do Educar em Blocos durante uma reunião do projeto.

 

Prêmio IGK

Ganhar o Prêmio IGK é uma grande conquista profissional. Mas a emoção nos olhos de Lucimara no dia do evento revela a importância desse reconhecimento em sua vida pessoal também. “Os alunos sabem que eu sou manteiga derretida, mas é porque na hora a mente passa tanta coisa…”, reflete.

Ela pensa em todos os “nãos” que recebeu, em todas as pessoas que não acreditaram no projeto, e na importância que o Educar em Blocos teve na vida de seus alunos. Pensa nas crianças que antes tinham dificuldade de socialização e que, hoje, envolvidas em um projeto de seu interesse, se tornaram verdadeiras “tagarelas”. “Isso é gigantesco”, afirma.

“Um aluno autista ou com deficiência pode aprender como qualquer outro”, defende Lucimara. “Só que a gente precisa olhar verdadeiramente para esse aluno e entender como ele pode aprender. Eu aprendo de um jeito, você aprende de outro, ele aprende de outro.”

A importância da educação especial é uma bandeira que o casal carrega na vida. “A gente sempre insiste para os colegas que é possível trabalhar com educação especial”, diz João. Lucimara complementa: “É mais difícil. Mas é possível.”

Guga e o novo desafio

Durante a premiação, Guga Kuerten já lançou o próximo desafio do Educar em Blocos: construir a cidade de Sombrio inteira no Minecraft. E os alunos já estão empenhados nessa missão.

Enquanto essa ideia toma forma, um dos estudantes teve a ideia de fazer outra construção para homenagear Guga: uma quadra de tênis na escola virtual — mesmo que, na vida real, a instituição de ensino não tenha quadra de tênis. Mas isso não é obstáculo para os integrantes do Educar em Blocos: no seu mundo virtual, o céu é o limite.

 

 

Da redação

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