Árvores – um bem mais que necessário, por Fernando Teixeira
Apesar da paisagem natural, capital catarinense tem baixo índice de arborização nas vias públicas
Florianópolis costuma ser lembrada como uma cidade cercada de natureza. Morros cobertos de vegetação, restingas, manguezais, lagoas e o mar que envolve a ilha compõem uma paisagem que, à primeira vista, sugere uma abundância verde. No entanto, basta caminhar por muitas de suas ruas para se perceber uma contradição: a capital catarinense, apesar de toda a exuberância natural que a envolve, é uma cidade com pouquíssimas árvores em suas vias públicas.
Rua Alves de Brito - Centro - Em seus 800 metros, muitos edifícios, uma pequena árvore na calçada - cena comum em Florianópolis.
Na verdade, Florianópolis nunca cultivou plenamente a tradição de arborizar suas calçadas. Diferentemente de outras cidades brasileiras, onde fileiras de árvores acompanham o traçado das ruas e ajudam a definir a paisagem urbana, aqui essa presença sempre foi mais rara e irregular. Talvez isso se explique, em parte, pela forma como é constituído o próprio território da ilha. Como grande parte do município é formada por morros e áreas de preservação ambiental, criou-se ao longo do tempo a sensação de que o verde já estava garantido pela natureza ao redor, dispensando um olhar mais atento para a arborização das áreas urbanizadas ou em urbanização, com raríssimas exceções.
Florianópolis - uma selva de pedras com pouco verde.
Mas essa percepção esconde um problema real: quando se observa apenas o espaço construído - ruas, avenidas, praças e bairros densamente ocupados -, o índice de arborização urbana está muito aquém do recomendado por organismos internacionais como a Organização Mundial da Saúde, que estabelece parâmetros mínimos de áreas verdes para garantir qualidade ambiental às cidades. Os números ajudam a dimensionar e entender esse problema. Florianópolis está hoje entre as cidades menos arborizadas do país. Apenas 44% das vias possuem algum tipo de arborização, e aproximadamente 34% da população vive em ruas que não contam com uma árvore sequer.
Avenida Hercílio Luz - uma experiência que parece ter dado certo.
Essa lacuna torna-se ainda mais preocupante diante do crescimento recente da capital. Na última década, Florianópolis registrou um aumento populacional próximo de 28%, impulsionando a expansão urbana e a verticalização em diversos bairros. Casas antigas, muitas delas implantadas em terrenos generosos com quintais, jardins e árvores frutíferas, vêm sendo substituídas por edifícios que ocupam quase toda a área disponível do lote.
Novos espaços surgem com poucas árvores para proteção do calor (Largo da Alfândega).
Com essa transformação, desaparecem não apenas construções que faziam parte da memória urbana, mas também os pequenos ecossistemas domésticos que ajudavam a amenizar o clima da cidade. Mangueiras, pitangueiras, goiabeiras, amendoeiras e tantas outras árvores que antes ofereciam sombra às calçadas cedem lugar ao concreto, às garagens e a áreas impermeabilizadas.
Em muitos desses novos empreendimentos, os jardins frontais, quando existem, são mínimos, incapazes de compensar o verde que se perdeu.
Nem mesmo os novos espaços públicos parecem escapar dessa lógica. Nos últimos anos, algumas praças surgiram ou foram reformadas, em diferentes pontos da cidade. Muitas delas, no entanto, apresentam amplas áreas pavimentadas e equipamentos de lazer, mas contam com poucas árvores sobre seu traçado. São espaços que, paradoxalmente, oferecem pouco abrigo contra o sol intenso que marca boa parte do ano em Florianópolis, sobretudo no verão.
Exemplo de rua com arborização e calçadas adequadas (Jurerê Internacional).
A arborização urbana não é apenas uma questão estética. Árvores, além de reduzirem a temperatura das cidades, filtram poluentes, auxiliam na drenagem das águas da chuva e tornam o ambiente urbano mais acolhedor para quem caminha, trabalha ou simplesmente deseja permanecer em um espaço público. Elas são parte essencial da infraestrutura ambiental de qualquer cidade contemporânea.
Florianópolis continua sendo privilegiada por sua paisagem natural, mas talvez esteja na hora de reconhecer que a natureza que circunda a ilha não substitui a natureza que deveria existir dentro da cidade. Morros e matas preservadas são fundamentais, mas não fazem sombra sobre as calçadas, sobre as vias públicas. Projetos consistentes e duradouros que visem modificar essa realidade precisam estar na pauta daqueles que planejam e administram nossa cidade. Necessitamos urgentemente reverter esse quadro para fazer com que Florianópolis possa proporcionar ainda mais qualidade de vida para todos os seus habitantes.
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Sobre o autor
Fernando Teixeira
Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFSC), mestre em Geociências e Doutor em Educação Científica e Tecnológica (UFSC), natural de Florianópolis. Atualmente tem se dedicado à fotografia.
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