Marcelo Passamai revisita silêncios deixados pela pandemia
Obra escrita durante a Covid-19 reúne poemas que atravessam medo, isolamento, esperança e transformação humana
E o nosso Personagem da Semana é o jornalista e escritor Marcelo Passamai, um homem que transformou as marcas silenciosas da pandemia em poesia. Natural do Rio de Janeiro e morador de Florianópolis desde 1989, Passamai construiu uma trajetória de quase quatro décadas no jornalismo sem nunca se afastar da literatura. Agora, aos 61 anos, ele retorna ao gênero poético após mais de vinte anos com o lançamento de “Ponto Final”, obra que revisita medos, angústias e sentimentos deixados pelo período da Covid-19. O livro será lançado no dia 28 de maio, às 19h, na Fundação Cultural Badesc, em Florianópolis.
Embora tenha passado mais de duas décadas sem publicar poesia, Marcelo revela que jamais deixou de escrever. “Na verdade eu nunca deixei de escrever. A poesia faz parte do meu cotidiano há muito tempo. Mas até tomar um corpo e um direcionamento para um livro isso demora tempo”, conta. Para ele, a poesia sempre esteve ligada à maneira como observa o mundo e absorve as emoções do cotidiano.
Foi justamente desse olhar sensível que nasceu “Ponto Final”. Os poemas começaram a ser escritos ainda durante a pandemia, em meio às incertezas que atravessaram milhões de pessoas. O livro funciona quase como um diário emocional daquele período, reunindo reflexões construídas no calor dos acontecimentos.
“Os poemas foram escritos no dia a dia da pandemia. Um diário mesmo. O medo, as angústias, as esperanças, o isolamento, o aprender com um novo mundo, enfim, tudo que fomos passando e sentindo de forma muito sensorial por todos nós”, relembra.
Ao longo de 76 páginas, a obra conduz o leitor por uma travessia íntima e reflexiva. Sem divisão por capítulos, os versos exploram a tensão entre razão, existência e sentimento. Mais do que falar sobre a pandemia, o livro busca compreender o que ela deixou emocionalmente em cada pessoa. Para Marcelo, aquele período obrigou o mundo inteiro a se repensar.

Livro reúne textos produzidos durante a pandemia e propõe uma reflexão sobre as cicatrizes emocionais deixadas pelo período.
“Esse livro diz que sim. Sempre haverá poesia, enquanto olhos e corações otimistas, cheios de sentimentalidades, existirem”, afirma o autor ao refletir sobre a possibilidade de existir sensibilidade mesmo após um período tão duro da humanidade.
As emoções humanas presentes no livro também dialogam com a tecnologia. As ilustrações de “Ponto Final” foram criadas com o auxílio de Inteligência Artificial e apresentam imagens oníricas que acompanham os poemas. A experiência, segundo Marcelo, foi uma forma de compreender esse novo mundo surgido no pós-pandemia.
“A Inteligência Artificial é o novo. Faz parte deste novo mundo pós-pandemia e temos que aprender junto dela. Quis experimentar e ver o que ela poderia me sugerir ao ler os meus poemas. O resultado foi incrível”, conta. Para ele, as imagens ampliam o universo imaginário da obra e ajudam a intensificar a força dos versos.
Com apoio cultural do Laboratório Nossa Senhora de Fátima e da Decisão Propaganda, o lançamento do livro também representa um momento simbólico para o escritor. Marcelo faz questão de destacar a importância da Fundação Cultural Badesc para a cultura catarinense. “Para mim, a Fundação é mais do que uma instituição: é um símbolo de resistência e valorização da cultura”, afirma.
O espaço escolhido para o lançamento também desperta memórias e emoções. Instalado em um casarão do fim da década de 1920, que pertenceu ao ex-presidente Nereu Ramos, o local carrega uma atmosfera que toca profundamente o escritor.
“Eu não consigo entrar nesse espaço sem sentir o peso e, ao mesmo tempo, a leveza da história. Hoje, esse mesmo espaço abriga encontros, ideias e manifestações artísticas, conectando passado e presente de forma quase poética”, diz.
Autor de “Faca Cega”, “Descobrindo Açores”, “Inventário Feminino” e “Reportagens Inesquecíveis”, Marcelo Passamai também é membro fundador vitalício da cadeira número 14 da Academia de Letras do Brasil em Santa Catarina e atualmente atua como assessor de Comunicação Social da Polícia Militar de Santa Catarina.
Mas em “Ponto Final”, longe da rotina acelerada do jornalismo diário, ele escolhe falar sobre aquilo que permanece quando o silêncio chega. Sobre as cicatrizes invisíveis deixadas pela pandemia. Sobre a fragilidade humana. E sobre a poesia que, mesmo depois da dor, continua encontrando espaço para existir.
Da redação
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