O capitalismo diante da velocidade, por Vinicius Lummertz
Entre algoritmos, dados e inteligência artificial, artigo aponta riscos de concentração de riqueza e poder tecnológico global
O capitalismo talvez tenha entrado na sua maior transformação desde a Revolução Industrial. Mas existe uma diferença decisiva entre os dois momentos históricos: no século XIX, as mudanças eram mais tangíveis, visíveis e lentas. Ferrovias, eletricidade, motores, siderurgia, fábricas, automóveis e linhas de produção alteravam profundamente a economia, mas sua expansão levava décadas. As sociedades ainda tinham tempo para adaptar instituições, reorganizar o trabalho, criar regulações e absorver os impactos sociais.
Agora, a transformação é diferente.
Ela ocorre em velocidade exponencial, de maneira invisível e fluida. O poder econômico migra rapidamente para dados, inteligência artificial, computação em nuvem, algoritmos e infraestrutura digital. Não se trata apenas de uma revolução tecnológica. Pode ser uma mutação estrutural do próprio capitalismo.
O economista Yanis Varoufakis, chamou esse fenômeno de “tecnofeudalismo”. A ideia parecia exagerada há poucos anos. Hoje, já não soa absurda. Plataformas digitais passaram a controlar não apenas mercados, mas comportamento, informação, publicidade, reputação e parcelas crescentes da vida econômica e social.
Talvez esteja emergindo também uma espécie de tecnofundamentalismo silencioso: a crença de que algoritmos e inteligência artificial seriam capazes de substituir progressivamente decisões humanas, mediações políticas e até valores civilizatórios complexos. A eficiência tecnológica começa a ser tratada quase como um valor absoluto.
Quando Elon Musk afirma que a inteligência artificial poderá reduzir drasticamente a necessidade de trabalho humano, ele não descreve apenas automação. Descreve uma reorganização profunda da sociedade. Quando Peter afirma que “competição é para perdedores”, explicita a lógica estrutural da nova economia digital: escala global, concentração e domínio tecnológico.
Ao mesmo tempo, Palantir Technologies passou a ocupar funções estratégicas em defesa, inteligência e segurança, aproximando as big techs das estruturas tradicionais de poder geopolítico.
O historiador Noah Harari alerta para a possibilidade da formação de uma “classe inútil”, composta por milhões de pessoas economicamente deslocadas pela automação. Pela primeira vez, não se substitui apenas a força física. A inteligência artificial começa a substituir partes crescentes da cognição humana, da análise técnica e até da produção intelectual.
Mas há um paradoxo extraordinário. A mesma tecnologia que ameaça profissões poderá democratizar serviços sofisticados em escala inédita. Médicos, engenheiros, advogados e professores poderão multiplicar produtividade e alcance. Robôs humanoides assumirão tarefas repetitivas. Serviços de qualidade poderão se massificar.
A pergunta decisiva passa a ser outra: quem ficará com os ganhos dessa explosão de produtividade?
O capitalismo industrial distribuiu parte da riqueza por meio do emprego de massa, da urbanização e da formação da classe média. O choque social da Revolução Industrial levou o Ocidente a construir mecanismos de adaptação, como direitos trabalhistas, welfare state e social-democracia.
O capitalismo sempre encontrou formas de se reformar. O problema agora é o tempo.
As transformações atuais acontecem em uma velocidade muito superior à capacidade de adaptação das instituições, dos sistemas educacionais, das legislações e da própria política. A inteligência artificial evolui em ciclos de meses. As respostas sociais ainda sequer começaram a ser formuladas com clareza.
Talvez, pela primeira vez, a inovação esteja avançando mais rápido do que a capacidade das democracias de reorganizar a sociedade diante dela. Isso põe em risco a própria concepção de democracia.
O desafio contemporâneo não é impedir a inteligência artificial. Ela já começou. O verdadeiro desafio será impedir que a prosperidade produzida por ela se transforme em uma nova aristocracia tecnológica global.
Porque civilizações não entram em crise apenas quando empobrecem. Entram em crise também quando enriquecem, mas deixam de oferecer horizonte, pertencimento e utilidade para a maioria das pessoas.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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