O endividamento dos brasileiros precisa entrar na eleição, por Vinícius Lummertz
Juros elevados, baixa poupança e falta de investimento revelam um modelo que corrói a renda e compromete o futuro do país
As recentes declarações do presidente do Banco Central, Gabriel Gallipolo, trouxeram à tona um aspecto que, embora amplamente conhecido, raramente é tratado com a devida profundidade no debate público brasileiro: o custo do crédito ao consumidor no país permanece, por décadas, em níveis extremamente elevados, frequentemente superando 100% ao ano e, em diversas modalidades, alcançando patamares ainda mais altos.
O diagnóstico é correto e não pode ser relativizado, sobretudo porque traduz uma realidade concreta que afeta diretamente a vida de milhões de brasileiros, mas, ao mesmo tempo, é preciso reconhecer que a solução para esse problema não se encontra apenas no sistema financeiro, nem tampouco na atuação isolada da autoridade monetária, uma vez que os próprios condicionantes que sustentam esse nível de juros permanecem presentes e atuantes na estrutura econômica do país.
O Banco Central opera dentro de limites que não pode ignorar, entre os quais se destaca o desequilíbrio fiscal persistente, que pressiona expectativas, eleva o custo do dinheiro e restringe o espaço para reduções mais consistentes das taxas de juros, ao mesmo tempo em que o cenário internacional, marcado por instabilidade crescente e maior seletividade na alocação de capital, pode, inclusive, impor pressões adicionais, tornando necessário, em determinadas circunstâncias, manter ou até elevar juros para preservar a estabilidade macroeconômica.
Esse pano de fundo revela que o problema do crédito caro não é isolado, mas parte de uma engrenagem mais ampla, que se manifesta de forma particularmente aguda no elevado nível de endividamento das famílias brasileiras, hoje já superior a 87 milhões de pessoas, um contingente que não pode mais ser tratado como exceção, mas como expressão de um modelo que consome a renda antes que ela consiga se transformar em poupança. O dinheiro do Brasil vai da sociedade para os governos e o sistema financeiro.
E é justamente nesse ponto que o debate precisa avançar.
Com a poupança esterilizada pelo endividamento, não há investimento, e sem investimento não há crescimento sustentado. Essa relação, elementar em qualquer economia, permanece fragilizada no Brasil, que convive com uma taxa de poupança em torno de 14% do PIB, insuficiente para sustentar os níveis de investimento de no mínimo 25%, necessários a um país de dimensões continentais e com enormes demandas por infraestrutura, produtividade e modernização.
O contraste internacional é eloquente.
Nos Estados Unidos, cerca de 60% da economia é composta por massa salarial, sustentada por uma produtividade quatro vezes superior à brasileira e que permite não apenas um elevado nível de consumo, mas também a formação consistente de poupança, canalizada por meio de fundos de pensão e mercados de capitais para o financiamento do investimento produtivo.
Na China, por sua vez, a poupança ultrapassa 40% do PIB, refletindo um modelo que, por caminhos próprios, priorizou a acumulação de capital e a sua alocação estratégica em infraestrutura, indústria e tecnologia, sustentando um ciclo prolongado de crescimento. Por isso, eles têm classes médias fortes e nós não.
Ao manter uma baixa capacidade de poupança interna, o país limita sua própria capacidade de investir e, consequentemente, de crescer, ficando preso ao que a literatura econômica denomina armadilha da renda média, situação em que a economia não é suficientemente pobre para crescer rapidamente por convergência, nem suficientemente produtiva para competir em patamares mais elevados de renda.
O próprio debate recente, inclusive no âmbito do Banco Central, tem apontado nessa direção, e convém lembrar que o primeiro passo para sair de uma armadilha é reconhecer que se está dentro dela, algo que o Brasil ainda reluta em fazer de forma explícita.
Diante da insuficiência da poupança interna, restaria ao país recorrer à poupança externa, atraindo investimento estrangeiro de longo prazo, especialmente em um momento em que o mundo ainda dispõe de grande liquidez e busca destinos estáveis para alocação de capital, cenário que se intensifica diante das incertezas geopolíticas, como as observadas no Oriente Médio.
O Brasil, por sua escala, mercado e posição estratégica, poderia se apresentar como um dos principais destinos desse capital.
Mas não o faz.
A absorção de poupança externa permanece limitada por fatores conhecidos e persistentes, entre os quais se destacam um ambiente de negócios ainda excessivamente complexo, dificuldades no licenciamento de grandes projetos, insegurança jurídica e baixa previsibilidade regulatória, elementos que tornam o país menos competitivo na disputa global por investimentos.
O resultado é uma economia que não poupa o suficiente, não atrai capital na escala necessária e mantém um sistema de crédito caro, que retroalimenta o endividamento e fragiliza a capacidade de crescimento.
Esse conjunto de fatores não pode permanecer à margem do debate eleitoral.
Porque, ao fim, não se trata apenas de discutir juros ou renegociação de dívidas, mas de enfrentar um modelo que impede a formação de poupança, limita o investimento e compromete o futuro econômico do país.
Trazer esse tema para o centro da eleição é, portanto, mais do que oportuno, é necessário, pois implica discutir não apenas os sintomas que afetam o presente, mas as bases que definirão a trajetória do Brasil nas próximas décadas.
E essa, inevitavelmente, é uma decisão de natureza política, que está implícita na fala do presidente do Banco Central.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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