Afeto, por Denise Evangelista Vieira
Reflexão sobre perdas, memórias e os laços afetivos que seguem vivos mesmo após a despedida
Esta semana fomos surpreendidos com a partida de uma amiga da nossa família que vivia em Manaus. Nos víamos anualmente nas férias, nos Natais. Amiga que testemunhou o crescimento das crianças, as transformações e as reconfigurações pelas quais passamos como família. Daqui, tínhamos notícias dela pelas redes sociais e pelos telefonemas que aconteciam com frequência.
Fiquei pensando no que pode nos ligar, de fato, a outras pessoas e fazer com que, ao partirmos, nossa falta seja sentida e nossa memória cultivada. Pensei na partida de pessoas públicas que ficaram na memória coletiva, seres humanos que com seu trabalho e algumas vezes com suas posturas, redirecionaram os rumos da história, interferindo na vida daqueles que ainda vão nascer. Pensei na trajetória de pessoas comuns, anônimas, e imaginei como foram suas vidas, que marcas deixaram pelo caminho. Pensei em todos que se movem, diariamente, por ideais de mudança e por sonhos, os mais diversos. Todos desenhando o tempo. E de novo me perguntei: o que fica? O que faz com que sintamos que a partida não seja suficiente para romper o elo? E uma única palavra parece responder a essa questão: afeto.
O afeto é um calor que existe no entre, uma generosidade etérea, uma doação que emana entre pessoas que se querem bem, um algo suave que não se pega, mas que é persistente e que permanece, não importando quantas estações as separem.
Essa energia que chamamos de afeto talvez seja a mais poderosa do mundo. A que realmente molda, transforma e é capaz de curar as mais diferentes enfermidades. A que restaura corações partidos, a que nos alegra nos dias de chuva e que pode se manifestar de maneiras infinitas. O afeto é o próprio amor quando se mostra. É aquilo que transborda em todas as manifestações de carinho genuíno, em gestos, em presentes, na vontade de estar junto, em toques físicos, nas orações, no jeito de cuidar e de se preocupar com o bem - estar do outro. É esse afeto que costura as relações, que nos predispõe a esforços e a alguns sacrifícios, porque dar afeto é o que nos faz sentir vivos e termos certeza de algum sentido.
O afeto é oxigênio para as nossas almas. Sem ele a vida vai ficando inviável. Está nas pequenas gentilezas, nos braços que se abrem quando chegamos, no olhar solidário, nos sonhos compartilhados, nos sorrisos cúmplices, no tempo de que dispomos para enviar ou responder uma mensagem, na alegria que sentimos com as conquistas daqueles que amamos. O afeto está na escuta, no silêncio, na pausa que cria espaço suficiente para que o outro possa se expressar. É sem dúvida ele também que se opõe ao seu reverso, que igualmente tem muitas faces, mas que ao contrário do afeto não potencializa a vida, não é ar para as nossas almas.
Nossa amiga que partiu era assim, transbordava afeto e por isso vai ficar guardadinha dentro de todos nós até que sejamos, também, memória.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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