“Fabiano” e a sala de aula, por Luzia Almeida
A paixão pela leitura herdada da mãe se transforma em ensinamento dentro da sala de aula, com as lições de Graciliano Ramos
Minha primeira professora foi minha mãe, foi quem me ensinou a ler os livros e a vida. Ensinar a ler os livros foi fácil, mas ler a vida exige uma escola contínua, onde não há provas, há experiências que adquirimos também com a vida que há nos livros. A vida me ensinou a amar minha mãe e o personagem “Fabiano” de Graciliano Ramos.
Minha mãe amava os livros e esse amor foi direcionado ao meu coração: acertou em cheio, tanto que, se vejo alguém lendo, pergunto o título: “Com licença, qual é o título deste livro?”. E se já li o livro é uma alegria porque de repente eu me sinto solidária com aquele leitor na perspectiva da inteligência do autor (que o leitor dispõe) e que já conversou suas ideias comigo e agora conversa com outro. E se ainda não o li, apaixono-me na hora porque já o germe da curiosidade se instala na minha mente como se fosse um sultão. É desse jeito! E, assim, aumento o grupo de leitores para que a ideia do autor não se perca.
Dona Abigail amava os livros, embora não tivesse muitas condições para comprá-los. Naquela época, década de 70, não havia todas essas facilidades para uma leitura e eu não sabia que seria professora e que o amor pelos livros seria passado também para minha filha. Uma hereditariedade intelectual e emocional. Uma hereditariedade que me acompanha e me faz feliz na sala de aula.
Não há nada nesse mundo que me faça sofrer se tenho um livro para ler, e se pensei em ser médica, estava completamente fora de mim... até que a lucidez chegou com o curso de Letras. É maravilhoso entrar na sala de aula e ter autoridade pra falar de “Fabiano” e seu sofrimento no sertão nordestino. Graciliano Ramos deixou esse presente para a sociedade brasileira: formas de vida (ou quase vida) no sertão por conta das ausências. “Fabiano” viveu tantas ausências que mesmo sendo analfabeto é um grande professor porque me ensina sobre desigualdade social, sobre seca e sobre analfabetismo. Ele é um tipo de “Capitu”. Enigmático, preferiu não matar o soldado amarelo: “Fabiano meteu-se na vereda que ia desembocar na lagoa seca, torrada, coberta de catingueiras e capões de mato. [...] voltou-se e deu de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara a cadeia, onde ele aguentara uma surra e passara a noite. Baixou a arma. Aquilo durou um segundo [...]. Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído esperneando na poeira, com o quengo rachado. [...] A lâmina parou de chofre, junto a cabeça do intruso, bem em cima do boné vermelho. [...] O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia.”. Felizmente, Fabiano poderia matar o soldado amarelo, mas preferiu não o fazer e é nisso que reside toda a glória do romance. São apenas páginas com palavras, mas capazes de produzir uma reflexão profunda sobre a vida e os valores. Fabiano é um ser rude e analfabeto do sertão nordestino, mas me ensina sobre a importância da leitura justamente pelo o que ele sofreu. Ele me faz lembrar o poema “Tarefa” de Geir Campos: “Morder o fruto amargo e não cuspir, / mas avisar aos outros quanto é amargo”. Aqui, o poeta abraça a causa do sertanejo e dialoga com a sociedade brasileira nestes dias de outubro e de aprendizagens.
Assim, temos a Literatura, a sala de aula de todos nós.
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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