00:00
21° | Nublado

“Fabiano” e a sala de aula, por Luzia Almeida
A paixão pela leitura herdada da mãe se transforma em ensinamento dentro da sala de aula, com as lições de Graciliano Ramos

“Fabiano” e a sala de aula, por Luzia Almeida
Em seu texto “Fabiano e a sala de aula”, Luzia Almeida compartilha a influência da mãe em sua formação como leitora e professora. (Foto: Pixabay)

Publicado em 15/10/2026

Minha primeira professora foi minha mãe, foi quem me ensinou a ler os livros e a vida. Ensinar a ler os livros foi fácil, mas ler a vida exige uma escola contínua, onde não há provas, há experiências que adquirimos também com a vida que há nos livros. A vida me ensinou a amar minha mãe e o personagem “Fabiano” de Graciliano Ramos.

Minha mãe amava os livros e esse amor foi direcionado ao meu coração: acertou em cheio, tanto que, se vejo alguém lendo, pergunto o título: “Com licença, qual é o título deste livro?”. E se já li o livro é uma alegria porque de repente eu me sinto solidária com aquele leitor na perspectiva da inteligência do autor (que o leitor dispõe) e que já conversou suas ideias comigo e agora conversa com outro. E se ainda não o li, apaixono-me na hora porque já o germe da curiosidade se instala na minha mente como se fosse um sultão. É desse jeito! E, assim, aumento o grupo de leitores para que a ideia do autor não se perca.

Dona Abigail amava os livros, embora não tivesse muitas condições para comprá-los. Naquela época, década de 70, não havia todas essas facilidades para uma leitura e eu não sabia que seria professora e que o amor pelos livros seria passado também para minha filha. Uma hereditariedade intelectual e emocional. Uma hereditariedade que me acompanha e me faz feliz na sala de aula.

Não há nada nesse mundo que me faça sofrer se tenho um livro para ler, e se pensei em ser médica, estava completamente fora de mim... até que a lucidez chegou com o curso de Letras. É maravilhoso entrar na sala de aula e ter autoridade pra falar de “Fabiano” e seu sofrimento no sertão nordestino. Graciliano Ramos deixou esse presente para a sociedade brasileira: formas de vida (ou quase vida) no sertão por conta das ausências. “Fabiano” viveu tantas ausências que mesmo sendo analfabeto é um grande professor porque me ensina sobre desigualdade social, sobre seca e sobre analfabetismo. Ele é um tipo de “Capitu”. Enigmático, preferiu não matar o soldado amarelo: “Fabiano meteu-se na vereda que ia desembocar na lagoa seca, torrada, coberta de catingueiras e capões de mato. [...] voltou-se e deu de cara com o soldado amarelo que, um ano antes, o levara a cadeia, onde ele aguentara uma surra e passara a noite. Baixou a arma. Aquilo durou um segundo [...]. Se houvesse durado mais tempo, o amarelo teria caído esperneando na poeira, com o quengo rachado. [...] A lâmina parou de chofre, junto a cabeça do intruso, bem em cima do boné vermelho. [...] O soldado, magrinho, enfezadinho, tremia.”. Felizmente, Fabiano poderia matar o soldado amarelo, mas preferiu não o fazer e é nisso que reside toda a glória do romance. São apenas páginas com palavras, mas capazes de produzir uma reflexão profunda sobre a vida e os valores. Fabiano é um ser rude e analfabeto do sertão nordestino, mas me ensina sobre a importância da leitura justamente pelo o que ele sofreu. Ele me faz lembrar o poema “Tarefa” de Geir Campos: “Morder o fruto amargo e não cuspir, / mas avisar aos outros quanto é amargo”. Aqui, o poeta abraça a causa do sertanejo e dialoga com a sociedade brasileira nestes dias de outubro e de aprendizagens.

Assim, temos a Literatura, a sala de aula de todos nós.

 

Para ler outras crônicas da Luzia Almeida, nossa brilhante colunista clique AQUI

Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI

Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.

Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!

Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp

Comentários via Whats: (48) 99162 8045

Siga-nos no Google notícias

Google News


Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


Ver outros artigos escritos?