Dupla canina do CBMSC encerra carreira
Depois de anos atuando em buscas por desaparecidos, desastres climáticos e operações de resgate em diferentes regiões do país, os cães Iron e Léia se despediram oficialmente do serviço ativo do Corpo de Bombeiros Militar de Santa Catarina (CBMSC). A aposentadoria dos labradores aconteceu na tarde da última sexta-feira, 15 de maio, durante a cerimônia de troca de comando da Organização de Bombeiro Militar (OBM) de Porto União, no Planalto Norte catarinense.
O momento marcou o fim de uma trajetória rara dentro da corporação: pai e filha encerrando a carreira no mesmo ato simbólico. Iron, com mais de 10 anos, é filho do cão Brasil, considerado um marco na história do serviço de busca do CBMSC. Já Léia, de quase 8 anos, representa a terceira geração da linhagem que atua nas operações catarinenses.
Missões históricas marcaram a carreira de Iron
Ao lado do cabo Josclei Tracz, Iron construiu uma trajetória de mais de uma década no serviço operacional. O cão iniciou as atividades em Xanxerê, no Oeste do Estado, e posteriormente acompanhou o militar na transferência para Porto União. Juntos, participaram de mais de 70 ocorrências e conquistaram sete certificações, incluindo uma internacional.
Entre as missões mais emblemáticas está a atuação em Brumadinho, Minas Gerais, após o rompimento da barragem da Vale, em janeiro de 2019. O desastre deixou 272 mortos e mobilizou equipes de vários estados brasileiros. Santa Catarina enviou quatro Forças-Tarefa em sistema de revezamento, com 43 bombeiros militares e sete cães de busca. Iron integrou duas dessas equipes.
Iron, o cão de Brumadinho.
Durante uma das operações no local, o labrador sofreu um ferimento na pata dianteira causado por um espinho e precisou passar por cirurgia emergencial no hospital de campanha montado pelos bombeiros mineiros. O procedimento foi acompanhado pelo próprio cabo Josclei, que também é médico veterinário. Cerca de dez dias depois, Iron voltou ao trabalho e retornou à missão.
Além de Brumadinho, o binômio, termo utilizado para definir a dupla formada por bombeiro e cão, também participou de operações em Petrópolis (RJ), Presidente Getúlio (SC) e no Rio Grande do Sul.
Buscas na mata fazem parte da rotina
Embora operações de grande repercussão ganhem destaque nacional, boa parte do trabalho dos cães ocorre em buscas terrestres por pessoas desaparecidas em áreas de mata fechada. Segundo os bombeiros, esse tipo de ocorrência é uma das mais frequentes no serviço canino.
Em 2020, Iron ajudou a localizar um idoso de 86 anos desaparecido havia mais de 24 horas após sair de uma instituição de longa permanência em Xanxerê. Já em 2023, em Luzerna, o cão encontrou um homem perdido em uma região de mata próxima ao Rio do Peixe, após dias de buscas.
O labrador também atuou em operações técnicas de localização de restos mortais. Em Chapecó, durante uma investigação conduzida pela Polícia Civil, Iron indicou um poço coberto por lixo onde foram encontradas ossadas humanas.
Léia seguiu os passos do pai
Filha de Iron com a cadela Malu, também integrante do CBMSC, Léia foi conduzida pelo cabo David Canever, da OBM de Canoinhas. O treinamento começou ainda quando a cadela era filhote, com atividades voltadas para buscas urbanas, rurais e localização de restos mortais.
Ao longo da carreira, Léia acumulou pelo menos 18 operações oficiais em cidades do Planalto Norte e da Serra catarinense, especialmente em ocorrências envolvendo idosos, crianças e pessoas desaparecidas em trilhas e regiões de vegetação densa.
Em 2022, pai e filha atuaram juntos na tragédia de Petrópolis, no Rio de Janeiro, após os deslizamentos provocados pelas fortes chuvas que deixaram mais de 200 mortos. Ambos trabalharam no Morro da Oficina, área mais atingida pela catástrofe.
Filha de Iron e neta de Brasil, Léia ajudou a escrever uma nova geração da história canina do CBMSC.
Segundo o cabo David Canever, a convivência entre os dois cães durante o período em Porto União fortaleceu ainda mais o desempenho operacional das equipes.
Cães vivem com os bombeiros
No CBMSC, os cães de busca não permanecem em canis da corporação. Eles vivem nas casas dos condutores, integrados à rotina das famílias. O modelo adotado por Santa Catarina se tornou referência para outras corporações do país.
Os treinamentos utilizam exclusivamente reforço positivo, e os cruzamentos da linhagem são planejados para reduzir predisposições genéticas. Todos os cães operacionais da corporação descendem da mesma árvore genealógica iniciada pelo labrador Brasil.
A herança deixada por Brasil
Falecido em 2020, aos 16 anos, o cão Brasil foi o primeiro do CBMSC a conquistar certificação internacional para buscas. Durante a carreira, participou de mais de 100 operações e teve atuação decisiva na tragédia climática de 2008 no Vale do Itajaí, ajudando a localizar 23 vítimas.
A partir dele, o serviço de busca com cães ganhou reconhecimento nacional dentro da corporação catarinense. Iron é filho direto de Brasil, enquanto Léia faz parte da terceira geração da linhagem que segue marcando a história do CBMSC.
Da redação
Fonte: Secom
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