SC cria ferramenta para prever feminicídios
A possibilidade de identificar sinais de risco antes que um feminicídio aconteça está no centro de uma pesquisa inédita desenvolvida em Santa Catarina. A iniciativa pretende criar uma ferramenta capaz de auxiliar o poder público a reconhecer comportamentos associados a potenciais feminicidas, permitindo intervenções preventivas e ampliando a proteção às mulheres em situação de violência.
O projeto é conduzido pela pesquisadora norte-americana Dabney Evans, da Emory University, a partir de uma solicitação do Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC), em parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Os trabalhos tiveram início em dezembro de 2025 e foram apresentados publicamente pela primeira vez na última semana, durante a terceira edição do Seminário do Programa Indira, promovido pelo TJSC.
Pesquisa busca compreender o caminho até o feminicídio
A proposta surgiu de uma questão que orienta todo o estudo: o que diferencia um agressor que exerce controle sobre a mulher daquele que pode chegar ao extremo de matá-la?
Segundo Evans, embora a ciência já tenha identificado diversos fatores relacionados à violência contra mulheres, ainda não existe uma definição específica dos elementos que caracterizam homens com maior probabilidade de cometer feminicídio.
A pesquisadora explica que muitos dos fatores observados em agressores são semelhantes, mas que existe um ponto de ruptura ainda pouco compreendido. Entender quando a violência deixa de ser uma tentativa de controle para se transformar em intenção de destruição pode contribuir diretamente para a prevenção de mortes.
O estudo é considerado pioneiro por investigar especificamente o perfil de feminicidas no chamado Sul Global. Há pelo menos uma década, Evans desenvolve pesquisas sobre violência doméstica no Brasil e aprofundou seus estudos sobre os mecanismos que antecedem os feminicídios.
Estado deve assumir papel de prevenção
Para Michelle Hugill, servidora do TJSC, doutora em Psicologia e responsável por intermediar a participação da pesquisadora no projeto, um dos principais objetivos da iniciativa é transferir para o Estado a responsabilidade de identificar os riscos de morte enfrentados pelas vítimas.
A proposta busca evitar que mulheres em situação de violência tenham de reconhecer sozinhas os sinais de perigo. Com a futura ferramenta, profissionais que atuam na rede de proteção poderão identificar alertas precoces e adotar medidas preventivas antes que a violência alcance seu estágio mais grave.
Os números reforçam a necessidade desse tipo de atuação. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que, em 2025, o Brasil registrou uma média de quatro vítimas de feminicídio por dia. Além disso, a violência contra mulheres permanece ampla: uma em cada três brasileiras já sofreu algum tipo de agressão física, psicológica ou sexual.
Escala de risco será construída em várias etapas
A ferramenta será estruturada como uma escala de avaliação de risco. Para chegar ao modelo final, os pesquisadores vão ouvir diferentes grupos, incluindo especialistas, profissionais da área, agressores e condenados por feminicídio.
A primeira etapa consiste em uma revisão da produção científica já existente sobre o tema. Com base nesse material, cerca de 300 fatores de risco foram apresentados a especialistas de diversos países, que participam da construção do perfil do feminicida.
Ao longo do processo, os fatores considerados mais relevantes serão selecionados e submetidos à análise de profissionais que atuam diretamente com vítimas de violência. Em seguida, condenados por feminicídio também responderão aos questionários.
Na fase final, serão realizadas entrevistas com três grupos distintos: autores de feminicídio, agressores físicos e agressores psicológicos. Todos responderão às mesmas perguntas, permitindo a comparação dos resultados e a identificação de características específicas relacionadas ao risco de feminicídio.
A expectativa é que o trabalho seja concluído em agosto de 2027.
Instrumento poderá orientar decisões de proteção
Quando estiver pronta, a escala poderá servir como apoio para tribunais, forças de segurança e demais órgãos envolvidos no atendimento às vítimas. A intenção é criar parâmetros capazes de indicar situações de maior perigo e subsidiar decisões preventivas.
De acordo com Evans, análises realizadas após um feminicídio geralmente revelam sinais que já estavam presentes antes do crime. O desafio é reconhecer esses indícios em tempo hábil para evitar a morte.
A juíza Naiara Brancher, titular do Juizado de Violência Doméstica da Capital e coordenadora-adjunta da Coordenadoria da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cevid), destaca que a iniciativa pode fortalecer a atuação preventiva do Estado.
Segundo ela, o enfrentamento ao feminicídio não depende apenas de punições severas após o crime. O principal desafio é agir antes que a violência resulte em morte. Nesse contexto, a ferramenta poderá ajudar autoridades a identificar situações de risco elevado e reforçar a proteção às mulheres, assumindo de forma mais efetiva a responsabilidade estatal pela preservação de suas vidas.
Da redação
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