Albaraa Hamou, uma vida marcada por recomeços
Empresário sírio fugiu da guerra, chegou ao Brasil sem falar português, perdeu um café em um incêndio e enfrentou a pandemia antes de reconstruir sua vida em Florianópolis
A história do empresário sírio Albaraa Hamou, de 38 anos, é marcada por uma palavra: recomeço.
Antes de construir sua vida em Florianópolis, ele precisou fugir da guerra e da destruição da Síria. Por indicação de amigos, decidiu vir para o Brasil e, inicialmente, escolheu Brasília como destino.
Engenheiro de sistemas por formação, Albaraa acreditava que a Capital Federal ofereceria mais oportunidades. Mas, ao chegar, não conseguiu encontrar o endereço de um amigo que poderia ajudá-lo.
Sem falar português — comunicava-se apenas em inglês —, passou cerca de uma semana dentro do aeroporto de Brasília.
Até que ouviu alguém falando árabe. Ele correu até a pessoa e pediu ajuda. O conhecido explicou sobre as dificuldades de encontrar trabalho em Brasília, mas deu uma sugestão que mudaria sua vida: Florianópolis.
O ano era 2015, e Albaraa Hamou tinha então 27 anos.
Albaraa embarcou de ônibus para a Capital catarinense com apenas uma orientação: procurar a Rua Conselheiro Mafra, onde provavelmente encontraria outros sírios.
Encontrou. A partir daí, também conseguiu trabalho. Seu primeiro emprego em Florianópolis foi como estoquista de um armazém. Enquanto trabalhava, aprendeu português, e em alguns anos já economizou algum dinheiro.
A relação de Albaraa com o café, no entanto, já fazia parte de sua história familiar. Na Síria, sua família possuía uma torrefação de café, atividade que fazia parte de seu universo muito antes de ele imaginar que um dia construiria sua trajetória profissional no Brasil.
Mais tarde, trouxe da Síria o cunhado, que chegou ao Brasil com algum dinheiro. Com os recursos dos dois, abriram um café na Rua Sete de Setembro, especializado em comidas árabes.
Parecia que a vida começava a entrar nos trilhos.
Mas, dois anos depois, o café pegou fogo. A perda foi total.
O cunhado desistiu do negócio e voltou para a Síria. Albaraa, no entanto, decidiu recomeçar mais uma vez. Com o dinheiro do seguro, em 2018 encontrou um novo espaço na Rua Victor Konder, próximo à região do Banco Redondo. Segundo ele, o local estava “em ruínas”.
Com suas economias, recuperou o espaço e começou a preparar a abertura do atual Arabesque Café.

O espaço também reúne sabores brasileiros e pratos árabes, servidos sempre nas quartas e sábados.
Foi então que chegou a pandemia.
Mais uma vez, precisou mudar os planos.
Para sobreviver ao período mais difícil, reorganizou o negócio para trabalhar com tele-entrega. Contratou uma cozinheira brasileira para preparar comida caseira e marmitas, no estilo buffet, e uma cozinheira árabe para manter os pratos tradicionais de seu país.
A estratégia funcionou e Albaraa conseguiu atravessar o difícil ano de 2020.
Depois da pandemia, trouxe da Síria o irmão Abdulrahman, e depois a esposa Ghaidaa, que hoje ajudam no funcionamento do restaurante.
Seis anos depois de iniciar essa nova fase, Albaraa abre diariamente o Arabesque Café, às 8 horas da manhã. Durante a manhã e tarde, atende o público que procura cafés e lanches. A partir das 11 horas, começa o movimento do almoço, com um deliciosa comida brasileira no estilo buffet a kilo.
Às quartas-feiras e aos sábados, porém, o cardápio muda. É a vez da comida árabe, trazendo para Florianópolis os sabores e as tradições de sua terra.
Mas diariamente, para o lanche da manhã ou tarde, o Arabesque Café serve kibes, esfiras e doces árabes, além de um delicioso café torrado e moído no local, com a expertise de Albaraa.

Ligado ao café desde a infância, Albaraa mantém no restaurante uma conexão com suas origens.
A trajetória de Albaraa Hamou é feita de desafios que poderiam ter sido encerrada em muitos momentos: guerra, imigração, dificuldades para encontrar trabalho, um incêndio e uma pandemia.
Mas, a cada obstáculo, ele escolheu continuar.
Hoje, o Arabesque Café representa muito mais do que um negócio. Para Albaraa, que cresceu em uma família ligada à torrefação de café, o empreendimento também simboliza uma conexão entre suas origens e a nova vida construída em Florianópolis.
Uma história de coragem, trabalho e, acima de tudo, da capacidade de recomeçar.
Da redação
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Sobre o autor
Hermann Byron
Diretor geral do Imagem da Ilha, e um dos colunistas de gastronomia do jornal.
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