00:00
21° | Nublado

Peptídeos em alta: o que é preciso saber antes de usar, por Gabriela Morateli dos Santos
A venda de substâncias pela internet e as recomendações informais acendem um alerta sobre segurança e saúde

Peptídeos em alta: o que é preciso saber antes de usar, por Gabriela Morateli dos Santos
Legenda: A popularização de substâncias vendidas pela internet reforça a importância da informação confiável e da avaliação profissional antes de iniciar qualquer tratamento. (Foto: Reprodução)

Publicado em 18/10/2026

Basta uma conversa entre amigos, uma indicação nas redes sociais ou o relato de alguém que experimentou determinada substância para despertar o interesse por uma nova possibilidade de tratamento. Nos últimos tempos, os peptídeos passaram a circular com mais frequência nesse universo, associados a benefícios que vão do emagrecimento à recuperação muscular, passando pela melhora da aparência da pele e pelo envelhecimento saudável.

O problema começa quando informações incompletas, recomendações sem fundamento suficiente e ofertas comerciais se misturam, levando pessoas a considerar o uso dessas substâncias sem conhecer seus riscos.

Afinal, o que são peptídeos?

Peptídeos são moléculas formadas por pequenas sequências de aminoácidos, os mesmos componentes que formam as proteínas. No organismo humano, participam de diferentes processos biológicos e podem exercer funções importantes na comunicação entre células e na regulação de determinadas atividades do corpo.

Na medicina, algumas substâncias dessa natureza são utilizadas em medicamentos desenvolvidos para indicações específicas, após processos de pesquisa e avaliação de segurança e eficácia.

Um exemplo conhecido é o das substâncias utilizadas em medicamentos para o tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. A semaglutida e a liraglutida imitam a ação do GLP-1, sigla para peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, um hormônio produzido principalmente no intestino após a alimentação. Ele ajuda a regular a glicose no sangue, estimulando a liberação de insulina quando necessário, retardando o esvaziamento do estômago e contribuindo para a sensação de saciedade.

Já a tirzepatida atua sobre os mecanismos de ação de dois hormônios: o GLP-1 e o GIP, sigla para polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose. O GIP também é produzido no intestino em resposta à alimentação e participa da regulação da liberação de insulina. A ação conjunta sobre esses dois sistemas hormonais ajuda a explicar os efeitos da tirzepatida no controle da glicose e do peso corporal.

Esses exemplos mostram que alguns peptídeos têm aplicações terapêuticas importantes e são utilizados em medicamentos desenvolvidos e avaliados para indicações específicas. Isso, porém, não significa que qualquer produto anunciado como peptídeo tenha os mesmos efeitos, a mesma qualidade ou a mesma segurança.

A procedência, a regularização sanitária, as evidências científicas e a indicação clínica fazem toda a diferença. Isso, porém, não significa que todos os peptídeos disponíveis no mercado tenham os mesmos efeitos ou possam ser utilizados com segurança. A existência de pesquisas sobre uma substância não comprova, por si só, que ela seja eficaz para determinado objetivo, nem autoriza sua comercialização ou utilização em pessoas.

O que está sendo vendido pela internet?

Nas redes sociais, alguns produtos são apresentados como soluções para acelerar a recuperação muscular, estimular a produção de colágeno, favorecer o emagrecimento ou melhorar a aparência e a disposição.

Muitas vezes, a divulgação ocorre por meio de depoimentos pessoais, recomendações entre conhecidos e ofertas que prometem resultados rápidos. A linguagem técnica e a apresentação profissional das embalagens também podem transmitir uma sensação de segurança que nem sempre corresponde à realidade.

Em julho de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alertou que determinados peptídeos injetáveis divulgados na internet não possuem regularização sanitária e não oferecem garantias de origem, composição ou segurança. Em 14 de outubro, a agência anunciou novas medidas contra produtos comercializados irregularmente, incluindo diferentes peptídeos e substâncias anunciadas para emagrecimento.

Esses alertas reforçam a importância de não confundir popularidade com comprovação científica. Um produto estar disponível para compra, ter uma embalagem sofisticada ou ser recomendado por alguém conhecido não significa que seja seguro.

Quando a indicação vem de alguém conhecido

Uma das situações mais preocupantes é quando a decisão de utilizar uma substância começa com uma recomendação informal. Alguém conta que está usando, outra pessoa relata que pretende começar e, em pouco tempo, a informação passa a circular como se fosse uma orientação confiável.

Mas a experiência de outra pessoa não comprova que um produto seja seguro ou adequado para nós.

Mesmo quando existe uma finalidade legítima em estudo, é necessário compreender em que etapa estão as pesquisas, quais resultados foram demonstrados e quais riscos ainda precisam ser esclarecidos. Também é fundamental verificar se o produto possui regularização para o uso pretendido.

A compra pela internet, a indicação de um conhecido ou a recomendação de alguém que não tem habilitação para prescrever determinado tratamento não substituem uma avaliação profissional adequada.

Saúde não combina com atalhos

A busca por resultados rápidos é compreensível. Muitas pessoas querem emagrecer, melhorar a composição corporal, recuperar a disposição ou cuidar da aparência. O problema é quando essa busca leva à utilização de substâncias sem procedência confiável ou sem evidências suficientes para sustentar os benefícios anunciados.

Produtos injetáveis exigem atenção especial. Sem garantias sobre identidade, concentração, pureza e condições de fabricação, não é possível assegurar que o conteúdo corresponda ao que está descrito no rótulo. Também podem existir riscos relacionados à contaminação, a reações adversas e à própria utilização inadequada.

Outro ponto de atenção é que a segurança de muitas dessas substâncias ainda não está suficientemente estabelecida, especialmente quanto aos efeitos do uso prolongado

Além disso, quando uma solução comercial ocupa o lugar de uma avaliação individualizada, a pessoa pode adiar a investigação de um problema de saúde ou deixar de receber o cuidado de que realmente precisa.

Na busca por resultados rápidos, corremos o risco de colocar a solução antes mesmo de compreender o problema. Nem toda dificuldade exige um suplemento, assim como nem todo tratamento pode ser substituído por mudanças de hábitos. O cuidado começa pela avaliação, pela informação confiável e pela compreensão das necessidades de cada pessoa.

Os pilares da saúde continuam importantes

Sono adequado, alimentação equilibrada, hidratação, atividade física e manejo do estresse fazem parte de um conjunto de hábitos que contribuem para a saúde e a qualidade de vida.

Isso não significa que todas as pessoas devam resolver essas questões sozinhas antes de procurar tratamento. Existem condições que exigem avaliação e intervenção profissional, inclusive com medicamentos. O importante é não presumir que uma substância seja necessária sem compreender o contexto e as necessidades individuais.

Antes de procurar algo para melhorar o sono, por exemplo, vale observar a rotina, os horários, o consumo de cafeína e outros fatores que podem estar interferindo no descanso. Da mesma forma, o emagrecimento e a melhora da composição corporal não dependem de uma única substância, mas de uma abordagem que considere a saúde como um todo.

Os hábitos não substituem tratamentos quando são necessários. Mas tratamentos e suplementos também não eliminam a importância dos cuidados cotidianos.

Informação e acompanhamento fazem diferença

Antes de considerar o uso de qualquer substância com finalidade terapêutica ou estética, é importante buscar orientação de um profissional habilitado, verificar a situação do produto perante a Anvisa e desconfiar de resultados garantidos ou benefícios extraordinários.

Quando o objetivo envolve emagrecimento e saúde metabólica, o acompanhamento médico e nutricional pode contribuir para uma abordagem individualizada, considerando alimentação, rotina, necessidades e objetivos de cada pessoa.

Isso não significa rejeitar a ciência ou as novas possibilidades terapêuticas. Significa reconhecer que uma substância precisa ser avaliada de acordo com suas evidências, sua indicação e sua segurança, e não apenas pelo entusiasmo que desperta nas redes sociais.

A ciência avança, novas pesquisas são realizadas e tratamentos podem surgir. Mas existe uma diferença importante entre uma possibilidade em estudo e um produto seguro, eficaz e autorizado para uso.

Na saúde, nem tudo o que é novo representa progresso. Antes de investir dinheiro e colocar o próprio corpo em risco, vale fazer a pergunta mais importante: o que sabemos, de fato, sobre aquilo que estão nos oferecendo?

 

 

Se gostou deste conteúdo, clique AQUI e leia outros temas da nutricionista Gabriela Morateli dos Santos

 

Para voltar à capa do Portal o (home) clique AQUI

Para receber nossas notícias, clique AQUI e faça parte do Grupo de WHATS do Imagem da Ilha.

Gostou deste conteúdo? Compartilhe utilizando um dos ícones abaixo!

Pode ser no seu Face, Twitter ou WhatsApp

Comentários via Whats: (48) 99162 8045

Siga-nos no Google notícias

Google News


Sobre o autor

Gabriela Morateli dos Santos

Gabriela Morateli dos Santos

Nutricionista, com atuação voltada à promoção de um estilo de vida consciente, integrando corpo, mente e espírito, com foco em escolhas possíveis, autonomia alimentar e cuidado integral.


Ver outros artigos escritos?