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Fim da carreira exige redescobrir propósito e autoestima
A mudança na rotina exige adaptação emocional, construção de novos hábitos e fortalecimento das relações sociais para uma aposentadoria com mais qualidade de vida

Fim da carreira exige redescobrir propósito e autoestima
A aposentadoria pode afetar a autoestima e o senso de propósito; psicólogo explica como construir uma nova identidade nessa fase. (Foto: Freepik)

Publicado em 18/10/2026

A aposentadoria costuma ser associada à liberdade de aproveitar o tempo e à realização de planos adiados durante a vida profissional. Mas, para algumas pessoas, o encerramento da carreira também pode trazer dúvidas sobre identidade, autoestima e propósito. Isso porque, depois de décadas organizando a rotina em torno do trabalho, como lidar com a sensação de que uma parte importante de quem se é ficou para trás?

O impacto emocional dessa transição está relacionado, entre outros fatores, ao significado que o trabalho assumiu ao longo da vida. Para muitos, a profissão, para além de uma fonte de renda, está conectada ao reconhecimento social, vínculos de amizade, senso de competência e pertencimento. 

Segundo o psicólogo Filipe Colombini, a aposentadoria pode exigir uma reorganização na maneira como a pessoa se percebe e se relaciona com o mundo. “Durante muitos anos, é comum que a identidade esteja fortemente associada à profissão e às responsabilidades do trabalho. Quando essa rotina termina, o indivíduo pode sentir que perdeu parte do seu lugar no mundo. É importante compreender que essa sensação não significa que ele deixou de ter valor, mas que está diante de uma nova fase, que exige adaptação e a construção de novas referências”, explica.

Quando a autoestima passa a depender da profissão

A carreira pode funcionar como uma importante fonte de validação pessoal. Metas alcançadas, desafios superados, reconhecimento dos colegas e responsabilidades assumidas ajudam a construir a percepção de competência. Com a aposentadoria, a ausência desses estímulos pode levar algumas pessoas a questionar suas capacidades ou a sentir que já não são tão necessárias. 

Esse processo pode ser especialmente desafiador para quem dedicou grande parte da vida ao trabalho ou construiu relações sociais predominantemente no ambiente profissional. “Um dos pontos centrais é perceber que a profissão é uma parte da identidade, mas não precisa ser a identidade inteira. As experiências acumuladas, os conhecimentos adquiridos, os vínculos afetivos e as características pessoais continuam existindo depois do último dia de trabalho. A aposentadoria pode ser uma oportunidade para reconhecer essas outras dimensões e ampliar a maneira de enxergar a si mesmo”, afirma Colombini.

Enquanto algumas pessoas sentem alívio e entusiasmo, outras podem experimentar insegurança, tristeza ou dificuldade para se adaptar. “A história de vida, as expectativas sobre a aposentadoria, as condições financeiras, a saúde e a rede de apoio influenciam essa experiência”, diz o psicólogo.

Como construir uma nova identidade depois da aposentadoria?

A adaptação à aposentadoria não precisa acontecer de uma vez. Em vez de buscar imediatamente um novo grande objetivo, é possível construir uma rotina com significado por meio de pequenas mudanças e da exploração de interesses que ficaram em segundo plano durante a carreira.

O especialista aponta caminhos que podem ajudar nesse processo:

Reconheça sua história para além do currículo

Reflita sobre as características pessoais, os valores, as habilidades e os interesses que fazem parte de quem você é. A experiência profissional continua sendo importante, mas não é a única medida do seu valor. Pergunte a si mesmo quais aspectos da sua personalidade e da sua história deseja explorar nesta nova fase.

Construa uma rotina com propósito

A ausência dos horários e compromissos do trabalho pode gerar uma sensação de vazio. Estabelecer atividades regulares, reservar momentos para o lazer, cuidar da saúde e incluir projetos pessoais na semana ajuda a criar uma nova organização cotidiana. O objetivo não é preencher cada minuto, mas encontrar um equilíbrio entre descanso, autonomia e participação.

Invista em vínculos sociais

As relações construídas no ambiente profissional podem diminuir com o tempo, tornando importante cultivar outras formas de convivência. Aproximar-se de amigos e familiares, participar de grupos de interesse, frequentar atividades culturais ou integrar iniciativas comunitárias são possibilidades para fortalecer o sentimento de pertencimento.

Permita-se experimentar novos interesses

Aprender algo diferente, retomar um hobby, fazer um curso ou desenvolver um projeto pessoal pode ampliar a percepção de capacidade e abrir espaço para novas descobertas. Não é necessário transformar toda atividade em uma obrigação ou fonte de produtividade. O prazer de experimentar também tem valor.

Respeite o próprio tempo de adaptação

Evite comparar sua experiência com a de outras pessoas ou acreditar que deveria estar feliz o tempo todo. “Não existe um prazo universal para se adaptar à aposentadoria. É possível sentir alívio pela liberdade conquistada e, ao mesmo tempo, sentir falta da rotina profissional. Acolher essas emoções, sem julgamentos, ajuda a compreender as próprias necessidades e a construir uma nova etapa com mais consciência”, orienta Colombini.

Quando buscar ajuda psicológica?

Sentir saudade da rotina profissional, experimentar dúvidas sobre o futuro ou precisar de tempo para se adaptar não significa, necessariamente, que exista um problema de saúde mental. No entanto, quando a tristeza, a sensação de inutilidade, o isolamento ou a perda de interesse pelas atividades persistem e prejudicam a qualidade de vida, procurar apoio psicológico pode ser importante.

O acompanhamento terapêutico (AT) pode ser um importante aliado no processo de adaptação à aposentadoria. “O acompanhante terapêutico atua no cotidiano da pessoa, ajudando-a a desenvolver autonomia, retomar atividades significativas, bem como a ampliar a participação social e enfrentar dificuldades emocionais e comportamentais que possam surgir nessa transição”, pondera Colombini. “O foco é ampliar as possibilidades de participação e qualidade de vida, respeitando o tempo e a singularidade de cada um”, conclui. 

 

 

Da redação

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