Rendas antigas ganham novas histórias nas mãos da estilista Luisa Lobato
Marca autoral aposta no upcycling e no trabalho artesanal para transformar referências culturais em roupas contemporâneas
A história de uma família pode ser contada de muitas maneiras. Na de Luisa von Wangenheim Lobato, nossa Personagem da Semana, algumas dessas lembranças estão guardadas em fotografias antigas, outras sobreviveram em tecidos, bordados e rendas delicadas. Há também aquelas que atravessaram gerações sem perder o significado. Bisneta da baronesa Edla von Wangenheim, uma das pioneiras da fotografia e do cinema no Brasil, a estilista encontrou na própria história familiar um caminho para desenvolver seu trabalho e olhar para a cultura de Florianópolis com outros olhos.
A ligação com a moda começou cedo. Luisa cresceu em uma casa onde a arte, a cultura e as referências visuais tinham espaço importante. Nas paredes, as imagens de Edla estavam presentes, mesmo antes de a jovem compreender a dimensão do trabalho realizado pela bisavó entre as décadas de 1920 e 1940. Anos depois, aquelas fotografias ganhariam outro significado.
Formada em Moda pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), com especialização em Design de Moda pelo Instituto Marangoni, em Milão, Luisa trabalhou em São Paulo antes de retornar à capital catarinense. A volta coincidiu com um movimento de aproximação ainda maior com suas raízes. Naquele período, sua mãe e sua tia desenvolviam um projeto de recuperação e valorização da memória de Edla.
Ao acompanhar esse trabalho, Luisa percebeu uma conexão entre o olhar da bisavó e aquilo que desejava construir profissionalmente. Se Edla registrava a vida, os costumes e a cultura da região por meio da fotografia, ela poderia fazer algo semelhante utilizando a moda como linguagem. “Eu quis fazer da minha forma, através da moda, que é a minha paixão, e assim valorizar e contar essas histórias da cultura aqui de Santa Catarina", explica.
Marca autoral aposta no upcycling e no trabalho artesanal para transformar referências culturais em roupas contemporânea.
Foi dessa relação entre memória e criação que nasceu a marca LUISA LOBATO, dedicada ao upcycling e à valorização da identidade cultural da Ilha de Santa Catarina. A proposta não é simplesmente reproduzir elementos tradicionais em roupas, mas investigar suas origens, compreender seus significados e encontrar maneiras de incorporá-los a peças contemporâneas.
A história das rendas também passa pela Bélgica
Nas primeiras coleções, as rendas de bilro ocuparam o lugar central. A técnica, tão associada à história das comunidades litorâneas catarinenses, despertou em Luisa o interesse por uma investigação que ultrapassaria as fronteiras da ilha.
Durante suas pesquisas, a estilista encontrou referências à tradição rendeira da Bélgica, apontada como uma das origens dessa técnica que chegou aos Açores e, posteriormente, ao litoral brasileiro. Curiosa para conhecer de perto esse patrimônio artesanal, decidiu viajar até o país europeu.
O que inicialmente seria uma permanência de apenas três dias acabou se estendendo. Em Antuérpia, Luisa conheceu Brigitte Cromheecke, representante da quarta geração da família responsável pela Maison Dupont, casa de rendas fundada em 1957. Ali, encontrou não apenas peças que despertaram seu interesse estético, mas também uma história familiar ligada à preservação de um ofício artesanal. “Era ela mesma na loja vendendo e conversando com as pessoas, e assim, eu me apaixonei. Daí eu quis trazer essas rendas, que eram um trabalho super delicado, superminucioso", conta.
A experiência ampliou seu repertório e permitiu observar de perto as particularidades de uma tradição que também deixou marcas na cultura catarinense. Luisa, entretanto, não pretende limitar sua pesquisa a uma única técnica ou procedência.
A própria história da família oferece outros caminhos. Seu bisavô veio para Florianópolis para trabalhar na firma Hoepcke, que mantinha uma fábrica de rendas e bordados. Os tecidos produzidos naquele período também passaram a integrar o universo criativo da estilista.
Na primeira coleção da marca, inspirada em Edla, Luisa utilizou rendas da antiga fábrica familiar. A escolha tinha relação direta com a trajetória da bisavó e com o contexto em que ela viveu. Eram materiais que, além de sua qualidade artesanal, guardavam uma ligação concreta com a história da família. “Eu gosto de trabalhar com tecidos antigos, esses tecidos que têm história", afirma. Para ela, as possibilidades de criação estão justamente na diversidade dessas referências, sem a necessidade de permanecer vinculada a um único material ou tradição.
Para Luisa, a moda também pode ser uma forma de preservar e compartilhar a memória cultural.
O tempo também faz parte da criação
No ateliê, o desenvolvimento das peças não segue uma fórmula rígida. Luisa descreve seu processo como intuitivo, construído a partir de referências pessoais, pesquisa e experimentação. Cada coleção parte de um tema que lhe desperta interesse e exige um mergulho em livros, fotografias, textos e outros registros.
Paralelamente, ela procura tecidos e artigos têxteis que dialoguem com a proposta. As roupas começam a ganhar forma por meio de testes diretamente no manequim, utilizando a técnica de moulage, que permite construir os volumes e as estruturas do vestuário sobre o corpo.
A estilista também trabalha com composições, bordados e aplicações que criam novas superfícies. Uma peça pode ganhar outra leitura a partir da combinação de tecidos, de uma renda aplicada em um ponto inesperado ou da recuperação de um material que já teve outra finalidade.
O reaproveitamento é parte essencial dessa construção. A marca utiliza matérias-primas garimpadas da indústria têxtil e elementos do artesanato local, em uma proposta que busca reduzir o descarte e ampliar a vida útil dos materiais. As peças, geralmente únicas, são produzidas manualmente, com a participação de mulheres da Ilha de Santa Catarina.
O trabalho exige decisões cuidadosas e uma disponibilidade de tempo que nem sempre acompanha o ritmo da produção industrial. Quando questionada sobre os principais desafios de trabalhar com materiais reaproveitados e técnicas artesanais, Luisa resume a dificuldade em uma palavra: tempo.
A marca mantém a estrutura de um pequeno ateliê e costuma desenvolver duas coleções por ano. Embora adapte as criações às características de cada período, não trabalha com uma divisão rígida entre verão e inverno. A produção inclui roupas para diferentes ocasiões, inclusive peças para noivas e festas, segmento em que as rendas brancas despertam especial interesse da estilista.

Vestidos de noiva e festa também fazem parte do universo criativo de Luisa Lobato.
Vestir também é uma forma de contar histórias
Para Luisa, a moda pode ser um caminho para apresentar aspectos da cultura local que nem sempre recebem a atenção que merecem. Ao escolher referências para suas coleções, ela busca elementos que fazem parte da formação histórica e do imaginário da ilha, como a pesca, as lendas, a mitologia e os saberes populares.
A intenção é que essas referências não permaneçam restritas aos registros históricos ou às lembranças de quem conhece essas tradições. Ao serem incorporadas às roupas, passam a circular em outros espaços, alcançando pessoas que talvez nunca tenham tido contato com determinadas técnicas ou histórias. “Eu espero que as pessoas enxerguem o quanto a nossa cultura é rica e muito particular. A pluralidade de influências que nos cercam. E o quanto a sabedoria popular e o imaginário que habita a ilha merecem ser valorizados", diz.
Essa perspectiva também ajuda a compreender por que o trabalho da estilista não se limita às rendas de bilro. Os tecidos antigos da família, os bordados, as técnicas manuais e os materiais reaproveitados são diferentes possibilidades de desenvolver uma mesma investigação, como transformar referências do passado em algo que faça sentido no presente.
Há uma relação interessante entre o trabalho de Edla e o de sua bisneta. A primeira utilizava câmeras para registrar cenas, pessoas e costumes de seu tempo. A segunda recorre aos tecidos, às linhas e às formas para reinterpretar parte desse universo. São linguagens distintas, separadas por gerações, mas que encontram na valorização da cultura e da memória um ponto de aproximação.
Luisa não pretende reproduzir o trabalho da bisavó, tampouco transformar a história familiar em uma coleção de referências nostálgicas. Sua proposta é partir desse legado para construir uma identidade própria, que também incorpora pesquisas, descobertas e experiências pessoais.
No fim, talvez seja essa a característica mais interessante de sua criação, a capacidade de olhar para um tecido antigo sem enxergá-lo apenas como algo que pertenceu a outro tempo. Nas mãos de Luisa, ele pode ganhar uma nova forma, integrar outra história e continuar existindo. Assim como as fotografias de Edla, que permanecem como registros de uma Florianópolis de outras décadas, suas roupas procuram preservar algo que não se mede apenas pela aparência: a história que cada material carrega.
Texto: Carolina Beux
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