Rosane Girardi e a arquitetura que atravessa o tempo e os lugares
A experiência acumulada ao longo dos anos revela uma arquitetura construída a partir de relações humanas, tempo e permanência
Rosane Girardi é a nossa personagem da semana e traduz, por meio de sua trajetória na arquitetura, uma relação profunda entre tempo, espaço e pertencimento. Formada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ela escolheu Florianópolis como base de vida e trabalho, onde construiu um escritório que já ultrapassa três décadas de atuação, com projetos espalhados pelo Brasil e pelo exterior.
Ao longo desse percurso, o escritório que leva seu nome consolidou uma atuação marcada pela diversidade de escalas e pela escuta atenta às pessoas e aos contextos. Essa combinação, segundo ela, foi o que permitiu desenvolver uma visão mais ampla da arquitetura, entendida como um diálogo constante entre cultura, espaço e modo de vida.
Uma formação sem fronteiras rígidas
A relação de Rosane com Florianópolis começou antes mesmo da vida profissional. Ainda criança, ela visitava a cidade para ver os padrinhos e, nesse convívio afetivo, foi criando um vínculo que mais tarde influenciaria sua escolha de carreira e de moradia.
Formada em 1992, em um curso que ainda não separava de forma rígida as áreas de atuação, ela lembra que a arquitetura era pensada em múltiplas escalas. “Falávamos de projetos em diversas escalas que transitavam pela arquitetura, pelo desenho e projeto urbano”, relata. A ausência de uma disciplina específica de interiores não foi um obstáculo, mas um ponto de partida para um caminho intuitivo.
Os primeiros projetos residenciais abriram portas inesperadas. “Logo os próprios clientes passaram a pedir que eu desenhasse também os interiores das casas”, conta. Sem formação formal na área naquele momento, ela passou a atuar de forma empírica, mergulhando em cada detalhe dos espaços. “Fazia de tudo um pouco, da arquitetura da casa aos mínimos detalhes do cotidiano, até enxoval e quarto de bebê”, lembra.
Com o tempo, essa multiplicidade se transformou em marca. “Hoje percebo como essa experiência foi fundamental. Arquitetura não é apenas construção, é sensibilidade, narrativa, escala humana e modo de habitar.”
Construir nome sem atalhos
Iniciar carreira em um período sem redes sociais e sem vitrines digitais exigia outro tipo de paciência. Para Rosane, a construção de reputação no mercado catarinense foi um processo lento, sustentado principalmente pela confiança dos clientes.
“Era uma trajetória baseada em relações muito próximas e em uma reputação que se consolidava ao longo do tempo”, explica. A indicação de clientes satisfeitos tinha um peso decisivo na expansão do trabalho, que se desenvolvia de forma gradual e consistente.
Dessa experiência, ela destaca uma lição que atravessa toda a sua carreira: a importância da permanência. “Construir uma trajetória sólida exige tempo, escuta, amadurecimento e coerência entre aquilo que se cria e aquilo que se acredita.”
Continuidade com os clientes e o tempo
Com mais de duas décadas de atuação consolidada, Rosane também viu sua relação com os clientes se transformar em continuidade. Muitos dos projetos iniciais se desdobraram em novas fases da vida das famílias atendidas.
“Já projetei casas para diferentes etapas da vida dessas famílias e, hoje, atendo filhos e até netos de antigos clientes”, afirma. Para ela, essa permanência é um dos aspectos mais significativos da profissão.
Essa relação de confiança, segundo a arquiteta, nasce do respeito às histórias individuais. “Nosso papel não é impor uma assinatura sobre as pessoas, mas construir espaços que traduzam modos de viver, afetos e pertencimentos.”
A arte como presença silenciosa
A ligação com a arte também atravessa sua forma de projetar. Mais do que elemento decorativo, ela entende as obras como parte estrutural da atmosfera dos ambientes.
“A arte sempre esteve muito presente no meu modo de pensar os espaços”, diz. O interesse pelos artistas e pelos processos criativos amplia, segundo ela, a percepção sobre o próprio espaço habitado.
Esse olhar influencia diretamente o trabalho do escritório, que busca integrar arquitetura, interiores e expressão artística como dimensões complementares de um mesmo projeto.
Mudanças nos lares e novas formas de viver
Ao longo de mais de 20 anos, Rosane acompanhou transformações profundas na forma de morar. Casas mais compartimentadas deram lugar a ambientes integrados, e novas demandas passaram a fazer parte do cotidiano dos projetos.
“Casas de trinta anos atrás raramente tinham mais de uma suíte e sequer existia a ideia de home office como hoje”, observa. As mudanças no trabalho, nas relações familiares e nos hábitos de convivência redesenharam os espaços domésticos.
Essa evolução também se reflete no avanço da indústria da construção e do design de interiores. Materiais, tecnologias e soluções de automação ampliaram as possibilidades de personalização. “Hoje existe uma indústria muito mais preparada para oferecer possibilidades quase infinitas de conforto e desempenho.”
Experiências além das fronteiras
Embora reconhecida pelo trabalho em interiores, Rosane também mantém forte atuação na arquitetura. Um dos projetos mais marcantes de sua trajetória recente foi a implantação de um hangar privado com FBO em Assunção, no Paraguai.
O desafio, segundo ela, envolveu não apenas escala e complexidade técnica, mas também a adaptação a um novo contexto cultural e de mercado. “Foi um projeto que exigiu muito estudo, pesquisa e aprofundamento técnico”, relata.
A experiência abriu caminho para novos projetos no país, incluindo residências de grandes dimensões, pensadas para o clima quente e suas exigências de conforto ambiental.
Conexões entre Brasil, Paraguai e Estados Unidos
Mais recentemente, o escritório passou a atuar também em Orlando, nos Estados Unidos, em um projeto residencial com áreas externas e interiores. A experiência, segundo Rosane, amplia o repertório técnico e cultural da equipe.
“Trabalhar nos Estados Unidos tem sido muito rico, porque nos coloca diante de outras lógicas construtivas e outras dinâmicas de mercado”, afirma. Diferenças de sistema construtivo, linguagem técnica e processos de execução exigem adaptação constante.
Ao mesmo tempo, a presença de uma forte comunidade brasileira e latino-americana na região facilita a interlocução com fornecedores e parceiros locais. Essa rede, somada às ferramentas digitais, permite manter a integração entre escritório, equipes e clientes, mesmo à distância.
Para Rosane, esse cenário reforça uma característica central da arquitetura contemporânea: a capacidade de atravessar fronteiras sem perder o vínculo com o essencial.
Da redação
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