Ruchita prova que a arte também questiona
Livro reúne fotografia, vídeo, instalação e performance em uma trajetória marcada por questionamentos e constante transformação
E a nossa personagem da semana escolheu fazer da arte um espaço onde as respostas não chegam prontas. Em um tempo que parece exigir certezas, Ruchita segue pelo caminho contrário, ela transforma dúvidas em imagens, inquietações em pesquisa e experiências pessoais em obras que encontram eco em quem as observa. Depois de estrear sua primeira exposição individual no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP) e lançar, em Florianópolis, o livro "Todo momento de achar é um perder-se a si própria", a artista celebra um momento importante da carreira sem perder de vista aquilo que move sua produção desde o início: a disposição para mudar.
Natural de Curitiba e radicada em Florianópolis, Ruchita reuniu na publicação praticamente toda a produção desenvolvida entre 2017 e 2026. Mais do que um catálogo, o livro registra uma década de pesquisa em diferentes linguagens, como fotografia, vídeo, instalação e performance, revelando um percurso marcado por reflexões sobre identidade, memória, corpo, silêncio e transformação. "A ideia era realmente registrar esse meu percurso artístico dos últimos anos", resume a artista.
Ruchita reúne quase dez anos de produção artística em livro lançado em Florianópolis.
A arte como pergunta
Se existe um fio condutor entre os trabalhos de Ruchita, ele passa pelo questionamento. Para ela, a dúvida não representa insegurança, mas um movimento necessário para compreender quem somos. "Nenhum ser humano é igual ao outro e estamos em constante impermanência. O autoquestionamento também é uma forma fundamental para nosso desenvolvimento e aprimoramento", afirma.
Essa visão também inspirou o título da publicação, emprestado de uma frase de Clarice Lispector: Todo momento de achar é um perder-se a si própria. A ideia dialoga diretamente com a pesquisa desenvolvida pela artista, que propõe abandonar a necessidade de controlar todas as respostas para abrir espaço a novas possibilidades.
Quando a experiência vira obra
Entre todas as séries reunidas no livro, uma ocupa um lugar especial. Produzida em 2025, Alternar-se nasceu depois da descoberta da diabetes e transformou uma vivência íntima em matéria artística.
As oito obras que compõem a série retratam os desafios de conviver diariamente com uma condição marcada por oscilações físicas, emocionais e mentais. Os trabalhos refletem sobre adaptação, equilíbrio e vulnerabilidade. "A diabetes me obriga a lidar diariamente com a impermanência e a instabilidade. Acredito que isso possa nos trazer um grande aprendizado de adaptação, de busca pelo equilíbrio e de aceitação", conta.
Ao incorporar essa experiência à própria pesquisa, Ruchita amplia uma discussão que ultrapassa o campo pessoal. Seu trabalho questiona a pressão para que as pessoas mantenham identidades fixas e perfeitas, lembrando que viver também significa mudar.
Arte feita em Santa Catarina
A recente exposição no MIS-SP marcou a estreia da artista em um dos principais museus dedicados à imagem do país e também trouxe visibilidade para uma produção construída fora do tradicional eixo Rio-São Paulo.
Para Ruchita, no entanto, Santa Catarina nunca deixou de ser um território fértil para a criação artística. "A cena artística sempre foi e sempre será muito efervescente e dinâmica. Temos muitos artistas talentosos. O que realmente nos falta, muitas vezes, são mais oportunidades de expor, compartilhar e divulgar a nossa arte", observa.
Livro apresenta pesquisas sobre identidade, memória, corpo e transformação.
Democratizar o acesso
O projeto também nasceu com uma preocupação que vai além da produção artística. Além da edição impressa, a obra ganhou versão digital gratuita, audiobook voltado a pessoas com deficiência visual e todas as atividades públicas contaram com interpretação em Libras.
Segundo a artista, tornar o conteúdo acessível faz parte do próprio sentido do trabalho. "A inclusão de todos que fazem parte da nossa sociedade é fundamental para que a arte seja mais democratizada e toque mais pessoas efetivamente. Todos temos direito de acompanhar de perto os processos artísticos", afirma.
O próximo capítulo
Mesmo após um período marcado por conquistas importantes, Ruchita já direciona o olhar para a próxima pesquisa. O novo projeto reúne a participação de 54 mulheres, entre 21 e 78 anos, selecionadas por meio de uma chamada aberta nas redes sociais.
A proposta investiga as imposições comportamentais dirigidas às meninas e às mulheres, reunindo histórias e diferentes vivências em uma obra construída coletivamente. "É um projeto que gostaria muito de expor em Santa Catarina assim que tivermos uma oportunidade", diz.
Enquanto esse momento não chega, permanece o convite que atravessa toda a sua produção, desacelerar, aceitar que ninguém está pronto e entender que talvez seja justamente na mudança que cada pessoa encontre a forma mais verdadeira de existir.
Da redação
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