Sobre Quintos e Derramas, por Luzia Almeida
Reflexão destaca o contraste entre o lirismo árcade e a violência do sistema colonial português
A Inconfidência Mineira de 1789 representa o pensamento de Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. A representação ajusta-se no contexto histórico-cultural de exploração de ouro e, embora exploração, mas com luzes poéticas, aponta para um nascedouro republicano onde se extravasaram trevas de ganância histórica no Brasil árcade de Marília de Dirceu. A condição humana que, de certa forma, também lembra a Divina Comédia, de Dante Alighieri: eis a questão.
Primeiro as luzes poéticas! Que é melhor, é bucólico e é ameno. Lidar com o amor no tempo do colonialismo não era trabalho fácil para Tomás Antônio Gonzaga (porque não apenas trabalhava com a palavra) e para sua musa adolescente: amores nos tempos das derramas, quem se importaria? Sim, importaram-se. E deportaram o nosso poeta apaixonado que de longe suspira por Marília: “Nesta cruel masmorra tenebrosa / Ainda vendo teus olhos belos”. Mas foi consolado com outros amores. Vida que segue...
Não podemos pensar sobre a Inconfidência Mineira fora do contexto do Arcadismo: aconteceram ao mesmo tempo. Mas, de certa maneira, é paradoxal, uma vez que a escola árcade tinha o equilíbrio e a simplicidade como características e o fato histórico era carregado de explorações coloniais. Do lado histórico temos a coroa portuguesa e suas imposições; do lado literário temos o lirismo de Tomás Antônio Gonzaga e de Cláudio Manuel da Costa: uma equação difícil de resolver porque a História se entende em três tempos — passado, presente e futuro — e a Literatura? Neste cenário de traições e sangue, de impostos pesados como quintos e derramas, a literatura empresta seu verde bucólico para suavizar o sangue do mártir. Consegue? Quem sabe!? Ficam as duas colunas como faróis: registro histórico e registro literário para que aprendamos para o futuro. É pensar o passado, considerar o presente para um futuro melhor. O sangue de Tiradentes e o verde dos campos dos pastores da lendária Arcádia são lições para quem quer aprender.
Nesse sentido, por conta de um passeio em Ouro Preto e por conta do 21 de abril de 1789, a doce Cecília Meireles resolveu resgatar afetos brasileiros em nome daqueles que deram suor e sangue pela causa libertária; resolveu escrever O Romanceiro da Inconfidência e publicá-lo em 1953. Meireles é uma linda!... Ela convoca o Trovadorismo: “Ai flores, ai flores, do verde pino, / se sabedes novas do meu amigo! / Ai Deus, e u é?” e canta a palavra que é o instrumento do poeta: “Ai, palavras, ai, palavras / que estranha potência a vossa! / Todo o sentido da vida / principia a vossa porta:” Trovadorismo e Modernismo na luta contra as trevas e, agora, ao lado do Arcadismo se juntam neste cenário lírico onde brasileiros são ressignificados no fato histórico a partir da sensibilidade da poetisa modernista.
Sim, não dá para esquecer o 21 de abril de 1789: são lupas lançadas à história sangrenta de nossos irmãos. Sim, uma história caracterizada por impostos e opressões que vingam sem pressa de cessar. E torno novamente a Hobbes e ao seu lobo. Um lobo que se redimensiona em Cérbero e se perpetua nas nossas terras auríferas.
Meu Brasil!...
Meu Brasil!...
De quantas derramas ainda sofrerás?
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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