Michel Mittmann avalia decisões recentes em Florianópolis
Ex-gestor aponta avanços em mobilidade e critica escolhas recentes
O arquiteto Michel Mittmann, 52 anos, teve papel decisivo nas decisões recentes sobre planejamento urbano de Florianópolis. Desde 2017, ainda na gestão Gean Loureiro, ele passou por secretarias estratégicas na administração municipal em áreas como transporte, mobilidade e sustentabilidade, e desde o ano passado está de volta ao escritório Methafora Arquitetos. Nesta entrevista, ele fala sobre seu legado no serviço público e temas como adensamento, verticalização e uso da ponte Hercílio Luz. Também comenta sobre a revisão do Plano Diretor, processo que comandou sob o comando do atual prefeito Topázio Neto (Podemos).
Imagem da Ilha: Quais os principais desafios e legados dos oito anos trabalhando com planejamento urbano da cidade de Florianópolis?
Michel Mittmann: Entrei em 2017 no primeiro ano da gestão do Gean Loureiro, inicialmente na diretoria do Instituto do Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf). O desafio era grande porque não tínhamos muitos recursos. Por isso, focamos em temas relevantes e escaláveis. Começamos com a questão do "caminhar", revisitando a caminhabilidade da cidade. Nasceu o manual Calçada Certa, que contribuiu muito para mostrar a necessidade de revisitar a caminhabilidade na cidade, e programas como o Mais Pedestres.
Usamos o "urbanismo tático", pinturas e ampliações virtuais de calçadas para redesenhar a interface urbana e chamar a atenção para o pedestre, e oportunizar a criação e implementação de áreas de ciclovias, trazendo a conexão, que antes era periférica, para dentro da cidade.. Esse pensamento de "guerrilha" — de fazer e demonstrar o valor na prática — foi fundamental. Hoje, essas ideias estão sendo recicladas em projetos como do arquiteto Jan Gehl, com apoio do LUA (Laboratório Urbano de Florianópolis). Essas intervenções foram rechaçadas na época.
Imagem da Ilha: Por quê enfrentaram resistências?
Michel Mittmann: Toda inovação causa um estranhamento inicial, mas a apropriação posterior demonstrou que estávamos corretos. A resistência vinha, basicamente, da perda de espaço para o automóvel. O condutor muitas vezes sente que o carro é mais "proprietário" da cidade do que a própria pessoa. Precisamos dos carros, claro, mas a balança estava desequilibrada. Conseguimos ampliar a infraestrutura cicloviária de 60 km para mais de 200 km, o que colocou Florianópolis em rankings nacionais relevantes. A cidade mudou; criou-se um movimento. Um dos exemplos disso foi o projeto de ressignificação da ponte Hercílio Luz.
Imagem da Ilha: Por quê considera esse processo importante?
Michel Mittmann: Havia uma visão "rodoviarista" do uso da ponte, mas eu disse: vamos parar tudo porque ali é um lugar de turismo, cultura, um lugar de baixa velocidade e integração com os parques e com as cabeceiras. E criamos o conceito Ponte Viva.
Logo em seguida veio a pandemia, realizamos fóruns de discussão e a gente conseguiu que a ponte ficasse, durante bastante tempo, restrita ao transporte coletivo em alguns horários. Criamos o primeiro corredor de ônibus que conectava até o terminal e isso gerou muita melhora de eficiência em linhas de ônibus.
Imagem da Ilha: A abertura total da ponte para veículos individuais foi a decisão correta? Qual sua avaliação hoje?
Michel Mittmann: Acho que foi um passo atrás. Perder a exclusividade do transporte coletivo, ao menos em faixas de horário específicas, prejudica a eficiência. Um ônibus leva muito mais gente do que a fila de carros que se forma ali. Infelizmente, as demandas políticas de curto prazo nem sempre se alinham às decisões técnicas acertadas para o longo prazo. As cidades precisam aprender a conviver com esses enfrentamentos necessários.
O arquiteto ainda aponta referências internacionais como Copenhague, Amsterdã e Paris, que passaram por transformações urbanas ao priorizar pedestres, ciclistas e transporte coletivo.
Imagem da Ilha: Quais cidades no mundo hoje você considera referências de boas práticas que melhoram a qualidade de vida da população?
Michel Mittmann: Copenhague e Amsterdã, exemplares na cultura do transporte coletivo, no uso da bicicleta e na valorização do pedestre na Europa, tinham na década de 1970 os mesmos problemas de Florianópolis: espaços públicos tomados por estacionamentos. Elas transformaram essa cultura em 50 anos. Mais recentemente, outra referência é Paris, que começou a tirar pistas de automóveis e reciclá-las para outros modais. Estão retirando pistas de automóveis e reciclando o tecido urbano para outros modais sem precisar construir tudo do zero.
Imagem da Ilha: Como você reage a comentários de que o Plano Diretor atual incentiva uma verticalização excessiva da cidade?
Michel Mittmann: Não existe edifício sem gente. O problema não é verticalizar, é espalhar. Uma cidade espalhada é caríssima de manter (segurança, limpeza, asfalto). Quando adensamos eixos específicos com uso misto (moradia e comércio), tornamos a cidade mais eficiente e justa. É uma troca: permitimos que se suba um pouco mais, mas exigimos em troca moradia social, espaços públicos e eficiência urbana.
Imagem da Ilha: Como a arquitetura e o urbanismo deve pensar as cidades diante das mudanças climáticas?
Michel Mittmann: A resposta passa, entre outras coisas, por uma simbiose entre a cidade e o verde. Precisamos de "Cidades Esponja" que façam a gestão das águas no próprio local, em vez de apenas jogá-las para a rede pública. Edifícios devem ser corresponsáveis pelo reuso de água e energia. A densificação também ajuda aqui: ao concentrarmos a ocupação humana de forma inteligente, conseguimos preservar grandes áreas de corredores ecológicos intocados. Um dos meus últimos legados na prefeitura é o Floripa 400, um planejamento estratégico para pensar a cidade daqui a 47 anos. É um projeto que busca ser uma ponte entre gerações, superando gestões políticas para que Florianópolis continue sendo essa cidade maravilhosa.
Entrevista, fotos e decupagem: Fábio Gadotti
Edição: Carolina Beux
Edição final: Hermann Byron Neto
Da redação
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