Daniela Freitas resgata história da família e da Vinícola Villa Francioni
Empreendimento une tecnologia, arte e turismo desde sua concepção
Nesta terceira entrevista da série especial do Mês da Mulher, o Imagem da Ilha conversa com Daniela Freitas, presidente do conselho da vinícola Villa Francioni e uma das responsáveis por dar continuidade ao projeto idealizado por seu pai, o empresário Dilor Freitas. Ao relembrar os primeiros passos da vinícola, Daniela revisita decisões que, à época, pareciam incertas, mas que ajudaram a transformar a Serra Catarinense em um novo polo do vinho brasileiro.
Entre memórias familiares, desafios de gestão e a consolidação de um modelo que integra enologia, turismo e arte, ela revela como a vinícola manteve viva a essência do projeto original, ao mesmo tempo em que ampliou seu papel como espaço cultural e de valorização da produção local.
Imagem da Ilha: Como surgiu a ideia da vinícola?
Daniela: Toda a concepção, a ideia da vinícola surgiu a partir dessa visão do meu pai, que foi o fundador da empresa lá em 2001. Então, ele, o Dilor Freitas, que foi um grande empresário de grande sucesso no setor cerâmico, resolveu, a partir dessa data, empreender aqui na Serra Catarinense. Ele teve essa ideia a partir de uma microvinificação que estava acontecendo na EPAGRI, na estação de pesquisa do Governo do Estado. Estavam fazendo cultivos de uvas vitiviníferas da cepa Cabernet Sauvignon.
Ele experimentou essa vinificação, achou muito interessante, chamou enólogos, técnicos do Napa Valley, dos Estados Unidos, da Vinícola Robert Mondavi para fazer todo esse estudo e essa pesquisa e nos orientar em como implementar esse projeto aqui na Serra Catarinense. O enólogo Gustavo González e o viticultor, que cuidava do manejo do vinhedo, nos acompanharam desde antes da primeira safra e fizeram toda essa troca de conhecimento, esse aporte de conhecimento para nós.
Imagem da Ilha: Na época, Daniela, qual foi sua reação quando o Dilor comunicou a família que iria fazer uma vinícola?
Daniela: Olha, eu acho que foi a reação que todos tiveram quando tomaram conhecimento do tema da vinícola, porque pensávamos: "o que o pai está fazendo lá naquele lugar tão longe? Que não tem experiência nenhuma, não tem histórico de como essas uvas vão se desenvolver no futuro, como esse vinho poderá ser no futuro..." mas ele apostou muito a partir das pesquisas que fez. Ele viajou pelas principais regiões vitivinícolas, Napa Valley (EUA), Chile, Argentina, na Europa foi à França, Itália, Espanha. Lá ele buscou esse conhecimento e nos trouxe a ideia para fazer a vinícola assim, unindo a enologia ao turismo, o enoturismo.
Ele descobriu que nessas regiões, muitas culturas se desenvolveram. Que mesmo sem aptidão para muita coisa, essas terras evoluíram e se tornaram ricas e produtivas, melhorando a qualidade de vida a partir do desenvolvimento do enoturismo.
Imagem da Ilha: E como foi a participação da família no projeto? Vocês realmente abraçaram o projeto inicialmente ou ficou uma dúvida?
Daniela: Meu pai era uma pessoa muito carismática. Então ele envolveu a família desde o início. Ele era aquela pessoa que trocava ideias e agregava as pessoas aos seus projetos, e sempre nos levava junto para participar. Aqui nós acompanhamos desde o início da preparação do solo, do plantio das uvas. Inclusive, nós vínhamos frequentemente acompanhar a construção .
A gente achava aquilo uma enormidade, uma imensidão, era um projeto muito grande. E pensávamos: "nossa, o pai está ficando maluco enterrando aqui todo esse dinheiro”, e nem sabíamos quanto era, e até hoje não sabemos. Mas enfim, ele tinha esse plano, essa visão de que aqui poderia ser um polo de vinhos de alta qualidade, pelo terroir e pela altitude, e chegou a essa conclusão a partir de muitos estudos e pesquisas.
Ele queria que a Villa Francioni fosse uma vinícola referência, que a partir daqui muitos outros investidores, empreendedores pudessem se inspirar no nosso projeto, empreender no entorno e criar aqui um polo de vitivinicultura de alta qualidade muito distinta dos outros polos que haviam até então no Brasil.
Um projeto à frente de seu tempo: Com a Villa Francioni, Dilor Freitas trazia a proposta de transformar a serra em um polo de vinhos de altitude e incentivar novos investimentos no setor.
Imagem da Ilha: Com a partida do seu pai, como foi a gestão da empresa?
Daniela: Foi tranquila essa gestão. No ano que ele faleceu, fizemos uma viagem em família para França, a primeira e a última, inclusive, com toda a família reunida. Ele montou um programa de 10 dias pelas regiões de Bordeaux, Borgonha e Champagne. Tínhamos um roteiro diário, visitávamos quatro vinícolas por dia, fora as degustações, em hotéis e restaurantes. Ele nos deu uma aula.
A gente queria fazer cursos, ele falava: "não, nós vamos fazer um curso de pós-graduação ao vivo". Então contratou um guia, que nos acompanhou o tempo inteiro pela França. Com isso nós tivemos esse curso como ele falou. O que ele queria com isso? Que nós comprássemos essa ideia, que a gente levasse o projeto da Villa Francioni adiante, porque ele sabia.. já estava com 69 anos, e ele queria um projeto para as futuras gerações. Então, era importante que a família se involvesse para dar continuidade. Até parece que ele sabia o que iria acontecer, em breve. Mas enfim, logo que ele faleceu, nós encampamos a ideia imediatamente.
Apesar dos rumores da época de que não iríamos dar continuidade, porque nenhum de nós morava próximo, ou tínhamos algum envolvimento na área rural, viticultura, e nós não éramos desse ramo de negócio. Mas enfim, nós já estávamos realmente bem envolvidos em função dessa viagem, desse conhecimento que a gente adquiriu e levamos adiante. Então foi bastante tranquilo, nós montamos um conselho de administração, como já era nos nossos outros negócios de família, como na Cecrisa. Havia o conselho de administração com o presidente, vice-presidente e os conselheiros, onde a família faz parte do conselho, podendo haver conselheiros externos e tal. Então é um modelo que a gente implementou aqui na Villa Francioni, porque até então era só o pai estava tocando o projeto. Então foi dessa maneira que a família começou a participar de uma forma efetiva.
Imagem da Ilha: E a sua gestão aqui, acontece desde quando?
Daniela: O pai faleceu em 2004, logo em seguida, o João Paulo ficou como presidente do conselho e eu de vice-presidente até 2008. Em abril de 2008 ele saiu da presidência do conselho e eu assumi. Eu estou como presidente do conselho desde 2008. Foi quando desenvolvemos todos esses rótulos. Temos até os rótulos comemorativos dos 15 primeiros vinhos lançados. Há também uma linha desenvolvida pelo artista plástico Juarez Machado, que são seis rótulos e seguem até hoje.
Daniela Freitas, ao lado a irmã Adriana, dá boas vindas aos presentes durante a apresentação da exposição Tapetes de Corpus Cristi, da artista plástica Beatriz Harger (E), em meados de março, na galeria da Villa Francioni.
Imagem da Ilha: Na sua gestão, a Villa ao longo dos anos tem realizado vários eventos ligados à arte e à cultura. Como surgiu essa ideia? Já foi pensando no turismo? Como é que você vê esse envolvimento da Villa com a arte?
Daniela: Olha, isso é muito interessante, até porque praticamente virou o nosso DNA. A Villa Francioni foi idealizada pelo seu fundador em três tripés: o homem, a tecnologia e a arte. Então, o homem está interligado com todas as áreas. A tecnologia, com todo o aporte de conhecimento que foi implementado aqui, e a arte, porque já havia essa paixão pela arte, tanto que a galeria de arte fez parte do projeto desde o início, com esse intuito de se trazer artistas, exposições, valorizando a arte.
A arte nas suas mais diversas formas, pode ser lançamento de livros, pode ser uma dança, alguma outra apresentação, enfim, mas nós trouxemos muitas e muitas exposições. Como a do artista plástico Luciano Martins, de Florianópolis, tivemos também a exposição da Camille Claudel, trazida pela Lili Marins, na época do governador Luiz Henrique da Silveira. Tivemos nomes, como o próprio Juarez Machado, que posteriormente, criou os seus rótulos. A arte está intrínseca dentro do projeto e inclusive na arquitetura, já que a própria vinícola é uma obra de arte.
Recentemente recebemos aqui o arquiteto do projeto para relembrar todas as obras de arte que foram aqui implantadas, ajustadas dentro do projeto arquitetônico, contando todas as histórias. Então a gente percebe que a própria vinícola é uma obra de arte, a partir dessas explicações, desses vitrais antigos, com lustres da época do império, muito mobiliário antigo, os gradis também de antiquários, todo esse complexo aí torna a vinícola uma obra de arte.
Visitação guiada na Villa Francioni apresenta o processo de produção e inclui degustação dos rótulos da vinícola.
Na próxima semana, publicaremos a segunda parte da entrevista, contando sobre a emblemática ascensão do vinho VF Rosé ao mundo dos famosos, elevando a vínicola Villa Francioni a destaque mundial.
Entrevista, fotos e vídeo: Hermann Byron Neto
Decupagem e edição: Carolina Beux
Edição final: Hermann Byron Neto
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