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A vaquita-marinha e o desejo de envelhecer, por Luzia Almeida
Aquelas que conseguiram sobreviver estão rodeadas de predadores e se não houver quem as defenda, acabarão sumindo

A vaquita-marinha e o desejo de envelhecer, por  Luzia Almeida
O envelhecimento das mulheres é quase um sonho de consumo. (Foto: Pixabay)

Publicado em 29/03/2026

São muitas as obras literárias que tratam da questão do envelhecimento e todas as obras levam-nos à reflexão sobre esta importante fase da vida. No conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector, temos a personagem Zilda aparentemente lembrada no dia do seu aniversário, fica transtornada com o comportamento superficial da família e faz um escândalo; no conto “O velho e o mar”, do escritor Ernest Hemingway, temos o personagem Santiago que se recusa aceitar o etarismo disfarçado de superstição no contexto de pesca; no poema “Retrato”, a poetisa Cecília Meireles, aborda as consequências no corpo por conta do tempo e anela saudosa as belezas da mocidade. São três personagens que encaram a velhice de modos diferentes e é importante dizer que todas elas desfrutam o privilégio de envelhecer e, hoje, esse privilégio está ameaçado de extinção e assemelhasse a vaquita-marinha (toninha do Golfo da Califórnia) ameaçada por pesca ilegal.

É a mesma história envolvendo predadores! É sempre assim! As vidas das mulheres estão nas páginas policiais todos os dias e, ainda assim, as estatísticas de morte continuam aumentando. É surpreendente que, para um país como o Brasil, “gigante pela própria natureza”, infelizmente, noticiários diários e gigantescos continuam fúnebres porque o problema não foi resolvido. Não! Assim como as vaquitas-marinhas as mulheres também querem viver e envelhecer.

Envelhecer! Envelhecer!... O envelhecimento das mulheres é quase um sonho de consumo. E parece que nada está acontecendo, parece-me que os problemas mais sérios do Brasil tendem a ser descartados e não resolvidos. Como mudar essa dinâmica? Atualmente temos visto o brado nas mídias “Parem de nos matar!” ou “Queremos viver!”, mas penso que os verbos “parar” e “querer” são tão fraquinhos quando desacompanhados das autoridades. A solidão do verbo “querer” (“Queremos viver!”), por exemplo, no contexto do feminicídio se compara a um pedido de liberdade de uma pessoa sequestrada para o seu sequestrador... Ele não ouvirá. Ele não se importará, ele não atenderá porque foi despojado de todo senso de justiça, de amor, de solidariedade, de compaixão. Um sequestrador é um ser embrutecido. E, seguindo esta linha de pensando, o que dizer do assassino, do feminicida? As vozes das mulheres bradando “Parem de nos matar!” é uma substituição, é uma metonímia. As autoridades competentes que deveriam assumir essa questão estão tão apáticas, tão anêmicas e tão necessitadas de mebendazol que são as próprias mulheres que partem para essa luta desigual neste contexto machista no qual a sociedade brasileira está infestada.

As vaquitas-marinhas precisam de proteção, mas não têm vozes para pedir socorro; aquelas que conseguiram sobreviver estão rodeadas de predadores e se não houver quem as defenda, acabarão sumindo do planeta. As mulheres do mesmo modo, mesmo com suas vozes, estão rodeadas de predadores; mas os predadores estão blindados e se multiplicam com a luz solar e, por conta disso, a ameaça de extinção feminina se tornou uma hipótese. Mais do que viver, as mulheres também precisam envelhecer e isto precisa ser uma prioridade nacional.

 

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Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


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