Ser feliz significa realmente estar bem emocionalmente?
Levantamento nacional mostra que 61,1% dos entrevistados se consideram felizes, enquanto a percepção de apoio de amigos e familiares diminuiu
Gostar da própria vida não significa estar livre de ansiedade, cansaço ou sofrimento. Uma pessoa pode reconhecer suas conquistas e ter relações importantes, mas ainda precisar de ajuda. Após o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, pesquisas reforçam a importância de olhar além da felicidade declarada e considerar as dificuldades enfrentadas no cotidiano.
A medição mais recente do Mapa da Felicidade Real do Brasil, conduzido por Renata Rivetti em parceria com o Instituto IDEIA, ouviu 1.500 pessoas de todas as regiões do país entre 4 e 8 de setembro de 2026. Nessa rodada, 61,1% se consideraram felizes, enquanto 78,3% afirmaram contar com apoio de amigos ou familiares. Na primeira etapa, realizada entre fevereiro e março, esse percentual era de 87,2%.
O levantamento inicial também mostrou que, embora cerca de nove em cada dez brasileiros se considerassem felizes, 33% apontavam ansiedade e 29%, estresse entre as emoções frequentes. Os indicadores refletem percepções dos entrevistados, não diagnósticos clínicos.
“Uma pessoa pode reconhecer aspectos positivos em sua vida, sentir gratidão, ter vínculos importantes, encontrar sentido no que faz e, ainda assim, atravessar períodos de ansiedade, exaustão, tristeza ou sofrimento”, afirma Rivetti, pesquisadora da felicidade e das relações humanas.
Para ela, o problema surge quando a ideia de ser feliz exige demonstrar constantemente que tudo vai bem.
A obrigação de dar conta de tudo
Trabalhar com propósito, cuidar da saúde, manter boas relações e reservar tempo para descansar. Segundo Rivetti, a busca por equilíbrio pode se transformar em cobrança quando todos esses objetivos precisam ser cumpridos ao mesmo tempo.
Até o descanso pode ficar condicionado à produtividade, como uma pausa para voltar a produzir mais, em vez de ser reconhecido como uma necessidade.
A pesquisadora defende que a discussão também considere as condições em que as pessoas vivem e trabalham. O acompanhamento profissional é importante quando necessário, mas o cuidado envolve ainda sobrecarga, disponibilidade de tempo e apoio.
“Precisamos evitar transformar problemas que também são sociais e relacionais em responsabilidades exclusivamente individuais”, afirma.
Mulheres relatam menor satisfação com a rotina
O recorte por gênero da primeira etapa do levantamento mostra que, embora mulheres e homens apresentassem níveis semelhantes de felicidade declarada, a satisfação com a rotina era menor entre elas: 35,6%, contra 44,9% entre eles.
A participação frequente em atividades sociais também era diferente. Entre as mulheres, 25,6% relataram esse hábito, ante 33,1% dos homens.
Na avaliação de Rivetti, a carga mental e o acúmulo de responsabilidades ajudam a compreender essas diferenças, embora os percentuais não comprovem uma relação de causa e efeito.
“Não estamos falando apenas das tarefas domésticas, mas da responsabilidade permanente de fazer a vida funcionar. É esse planejamento constante, que raramente aparece nas estatísticas de trabalho, que reduz o tempo disponível para descanso, lazer, relações sociais e autocuidado”, diz.
Por isso, recomendar que as mulheres encontrem tempo para si não resolve toda a questão. Também é necessário discutir a divisão das responsabilidades e as condições para que esse tempo exista.
Ter contato não significa ter apoio
Os dados mais recentes mostram uma redução na percepção de apoio social. Em setembro, cerca de 22% dos entrevistados disseram não contar com suporte de amigos ou familiares. Na primeira etapa, eram 12,8%.
“Os vínculos sociais estão entre os fatores mais importantes para a felicidade. Em fevereiro, a rede de apoio era um dos elementos que sustentavam a percepção positiva do brasileiro. Em setembro, vemos menos pessoas dizendo que podem contar com familiares ou amigos”, observa Rivetti.
Na primeira etapa, 21% dos jovens de 16 a 24 anos afirmaram não ter com quem contar em momentos difíceis. Já no módulo sobre redes sociais, 77,3% dos usuários dessa faixa etária disseram ter comparado a própria vida com a de outras pessoas.
Os dados não permitem concluir que as redes sociais provoquem falta de apoio, mas levantam questões sobre a qualidade das relações e a possibilidade de pedir ajuda.
“Estamos hiperconectados, mas isso não significa necessariamente que estejamos mais próximos. Temos mais canais de comunicação, mas muitas vezes menos espaço para conversas profundas”, afirma a pesquisadora.
Pedir ajuda não contradiz a felicidade
Para Rivetti, é possível amar o trabalho e precisar de uma pausa, sentir gratidão e desejar mudanças ou ter pessoas queridas por perto e, ainda assim, enfrentar dificuldades para compartilhar o sofrimento.
O cuidado passa por reconhecer limites, abrir espaço para conversas e cultivar relações em que a dor não seja minimizada. Descanso e convivência são importantes, sem substituir o acompanhamento profissional quando necessário.
“Precisamos construir uma cultura em que seja possível dizer ‘não estou bem’ sem que isso seja interpretado como fracasso e em que também seja possível dizer ‘estou feliz’ sem precisar provar isso o tempo inteiro”, conclui.
Da redação
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