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Você está esquecendo mais ou prestando menos atenção?
A rotina hiperconectada e o excesso de estímulos podem prejudicar a concentração e dificultar o registro de informações na memória

Você está esquecendo mais ou prestando menos atenção?
Esquecer o que acabou de fazer nem sempre significa falha de memória; a falta de atenção pode estar por trás desses episódios. (Foto: Freepik)

Publicado em 23/10/2026

Entrar em um cômodo e esquecer o que foi buscar. Pegar o celular para responder a uma mensagem e, minutos depois, perceber que já está fazendo outra coisa. Terminar o dia com a sensação de ter resolvido inúmeras demandas, mas sem conseguir se lembrar direito de parte do que aconteceu. Na rotina hiperconectada, esses episódios são cada vez mais familiares e alimentam a impressão de que nossa memória está falhando.

Mas será que estamos esquecendo mais ou estamos prestando menos atenção ao que vivemos? A relação entre atenção e memória ajuda a compreender por que tantas pessoas sentem dificuldade para se concentrar em meio a tantos estímulos. Segundo a neuropsicóloga Adriana Fóz, a atenção tem um papel fundamental na formação das memórias: “Para que uma informação seja registrada e possa ser recuperada posteriormente, ela precisa ser processada pelo cérebro. Quando o foco está voltado para outra coisa, nem tudo o que acontece ao nosso redor é devidamente assimilado”, diz ela.

Esse mecanismo ajuda a explicar por que interromper uma atividade repetidamente pode prejudicar a concentração. Responder a uma mensagem durante uma reunião, conferir as redes sociais enquanto se lê um texto ou alternar entre diferentes demandas ao longo do dia exige mudanças sucessivas de foco. A cada interrupção, precisamos retomar o raciocínio e recuperar o contexto daquilo que estávamos fazendo.

“Um dos equívocos mais comuns sobre o funcionamento cerebral é acreditar que conseguimos realizar várias tarefas cognitivamente exigentes ao mesmo tempo, mantendo a mesma qualidade de desempenho. Embora o cérebro seja capaz de processar diferentes estímulos simultaneamente e de dividir a atenção em determinadas condições, nossos recursos atencionais são limitados. Quando duas atividades exigem atenção consciente, memória de trabalho e controle executivo, geralmente ocorre uma competição por esses recursos. Assim, em muitas situações, o que chamamos de multitarefa é, na verdade, uma rápida alternância do foco atencional entre atividades, o que pode aumentar o tempo de execução e a ocorrência de erros”, explica a neuropsicóloga.

As consequências vão além da sensação de cansaço mental. Quando a atenção é fragmentada, podemos deixar de assimilar informações importantes, o que compromete a possibilidade de lembrá-las depois. “Em outras palavras, nem todo esquecimento representa uma falha da memória propriamente dita. Em alguns casos, a informação sequer foi registrada de maneira suficientemente consistente para ser recuperada”, alerta Adriana.

Isso não significa, entretanto, que todo lapso de memória seja resultado do excesso de telas. A qualidade do sono, o estresse e o cansaço também podem interferir na atenção e nos processos de memorização. Observar esses fatores é importante para compreender o que pode estar por trás das dificuldades cotidianas de concentração.

Hábitos como ler sem consultar o celular a todo momento, concluir uma atividade antes de iniciar outra e criar períodos com menos interrupções podem favorecer uma relação mais consciente com a atenção. Não se trata de eliminar todos os estímulos ou exigir concentração absoluta o tempo inteiro, mas de reconhecer que o cérebro precisa de condições para processar as informações que recebe.

“Costumo dizer que talvez estejamos vivendo um paradoxo da memória: nunca tivemos acesso a tantas informações e, ao mesmo tempo, nem sempre dedicamos a elas a atenção necessária para transformá-las em lembranças. É como se vivêssemos uma espécie de memória líquida, na qual muitas experiências passam rapidamente por nós, sem que tenhamos tempo ou disponibilidade cognitiva para elaborá-las”, relata Adriana. 

Isso não significa necessariamente que estejamos perdendo a capacidade de memorizar, mas que a fragmentação da atenção pode prejudicar a codificação e a recuperação posterior das informações. “Embora nem toda aprendizagem dependa de atenção consciente e deliberada, ela é fundamental para a formação de muitas das memórias que construímos no cotidiano. Afinal, antes de nos preocuparmos com aquilo que esquecemos, precisamos refletir sobre o quanto realmente prestamos atenção ao que vivemos”, conclui Adriana Fóz.

 

 

Da redação 

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