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O Ribeirão de Dona Edézia – memórias que o tempo guardou, por Fernando Teixeira

O Ribeirão de Dona Edézia – memórias que o tempo guardou, por Fernando Teixeira
Dona Edézia aos 91 anos, confeccionando rendas de bilro.(Foto: Fernando Teixeira) ***CLIQUE PARA AMPLIAR FOTO

Publicado em 12/11/2025

Há lugares que o tempo não apaga, apenas transforma. O Ribeirão da Ilha é um desses. Ao percorrer suas ruas, hoje ocupadas por modernas construções, ainda é possível recordar o cheiro da farinha quentinha e o som dos bois movimentando os engenhos outrora existentes, como que um desejo inconsciente de resistência à pressa com que vivemos nesses novos tempos.

 

Construções modernas modificam a antiga paisagem do Ribeirão da Ilha - Foto Fernando Teixeira.

 

Dona Edézia Santos da Silva, com noventa e um anos recentemente completados, uma das moradoras mais conhecidas e respeitadas da localidade, guarda inúmeras lembranças de uma doce infância vivida nesse encantado pedacinho de chão da Ilha de Santa Catarina. Quando fala, sua voz tem o tom manso das marés e o peso leve da saudade.

Conta que, quando criança, o Ribeirão era outro: de chão batido, de lampião aceso na sala de visitas, de água tirada do poço, de árvores carregadas de frutas e do cheiro gostoso das comidas feitas no fogão a lenha. Não existiam estradas calçadas, nem energia elétrica. Tudo isso era um luxo distante, pertencente aos que viviam nos locais mais próximos à cidade, como se esta estivesse a muitas léguas dali.

Dona Edézia nos relata que, na localidade de Alto Ribeirão, onde sempre residiu sua família, num percurso de aproximadamente quatro quilômetros existiam cinquenta engenhos. Essas estruturas, movidas por tração animal e sustentadas por mãos calejadas, eram utilizadas, em sua grande maioria, para a produção de farinha de mandioca. Havia também engenhos que produziam melado e seus derivados; já os que se destinavam à produção de cachaça encontravam-se instalados no Sertão do Ribeirão.

 

Igreja de N.Sra. da Lapa - um símbolo de fé de Dona Edézia e seus familiares - Foto Fernando Teixeira.

 

Enquanto raspavam a mandioca, que mais tarde viria a ser transformada em farinha, beiju ou roscas, as mulheres entoavam os cantos da ratoeira, trocando versos cheios de rimas umas com as outras. O trabalho virava música, e a dureza da tarefa se dissolvia em gargalhadas de alegria.

Dona Edézia foi alfabetizada na escola onde seu avô era o professor. Ali, além de aprender a escrever as primeiras palavras e a decifrar os números contidos nas operações da matemática, pôde conhecer mais de perto a importância do mestre Sebastião e admirá-lo por todo seu cuidado para com a coletividade.

Lembra que as condições sanitárias eram precárias naquele período, faltavam orientações às famílias sobre cuidados básicos de higiene e era comum que as crianças morressem acometidas por doenças relacionadas às verminoses. O professor ia além de suas tarefas acadêmicas: cuidava também da saúde de seus conterrâneos, principalmente os mais necessitados.

Sua força política, sua respeitabilidade e seu olhar atento para com o coletivo eram como que um farol a iluminar a escuridão desse sítio tão distante. Muitos se salvaram graças à sua tenacidade e ao seu valioso trabalho comunitário. Era também um homem de muita fé e ajudou a fortalecer as tradições religiosas na comunidade.

 

Festa do Divino Espírito Santo, tendo como festeiro o o pai de Edézia, Alcioneu. - Foto: arquivo da família.

 

As festas do Divino, de Santa Cruz, de Nossa Senhora da Lapa e até mesmo as realizadas na gruta construída em sua propriedade tinham sempre a sua preciosa participação. No campo cultural, o velho professor também era muito respeitado. Escrevia poesias, músicas e peças de teatro que eram encenadas no antigo Clube Bandeirantes, assim como em outras localidades da Ilha de Santa Catarina.

Edézia cresceu entre o carinho dos avós, o cheiro dos engenhos, o rangido dos carros de boi e as brincadeiras realizadas tendo a natureza como sua grande parceira. Aos nove anos, já acompanhava seu pai Alcioneu, que vinha de carroça até o centro de Florianópolis, onde, no mercado público, comprava mantimentos que seriam revendidos mais tarde no pequeno comércio de sua propriedade.

Lembra com alegria que saíam ainda de madrugada, enfrentando os mistérios da escuridão, além de estradas esburacadas e empoeiradas. Alcioneu, além de comerciante, foi também agricultor, político e professor. Assim como do avô, Edézia lembra dele com carinho e reconhece sua efetiva contribuição para a comunidade ribeironense.

Com apenas 16 anos, casou-se com Osvaldo e com ele teve seis filhos. Seu casamento foi diferente daqueles que normalmente aconteciam na localidade. Sem as comodidades da cidade, os noivos sempre se deslocavam a pé até a igreja no dia da celebração de núpcias. Sair do Alto Ribeirão para ir até a Freguesia, cruzando estradas empoeiradas, exigia esforço e muita determinação, pois eram alguns quilômetros até o destino.

 

Sr. Osvaldo e Dona Edézia - Festeiros da Festa do Divino Espírito Santo - Igreja de N.Sra. da Lapa  - Foto: arquivo da família.

 

Para surpresa do casal, foram presenteados pelos pais da noiva, que lhes ofereceram um automóvel para levá-los à igreja da Lapa. Foi um acontecimento na comunidade. Por onde passavam, eram aplaudidos alegremente por famílias que se posicionavam em frente a suas casas para assistirem ao inusitado cortejo.

 

Banda da Lapa - sempre presente nas festividades do Ribeirão da Ilha - Foto: arquivo da família.

 

Com apenas 37 anos, ficou viúva e passou por inúmeras dificuldades para conseguir criar seus filhos. Sua religiosidade e sua fé inabalável foram os sustentáculos para vencer as adversidades que a vida lhe havia colocado.

Já mais tarde, fez questão de transformar suas experiências em livros e, através deles, nos contar histórias e vivências relacionadas ao seu amado Ribeirão e sua gente.

Hoje, aquele pedaço tão agradável de Florianópolis já não é mais o mesmo. A chegada do asfalto, da luz elétrica, dos meios de transporte alterou significativamente a vida do lugar. As águas já não são tão limpas, as famílias já não se reconhecem como em outros tempos, as conversas no portão se transformaram em mensagens trocadas por meios eletrônicos e a calmaria deu lugar à pressa.

O Ribeirão da Ilha continua ali, geograficamente é o mesmo. Mas o verdadeiro Ribeirão mora dentro de Dona Edézia — feito de engenhos, de canto, de fé e de uma serenidade que o tempo não conseguiu levar.

 

 

 

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Sobre o autor

Fernando Teixeira

Fernando Teixeira

Formado em Arquitetura e Urbanismo (UFSC), mestre em Geociências e Doutor em Educação Científica e Tecnológica (UFSC), natural de Florianópolis. Atualmente tem se dedicado à fotografia.


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