Diversidade e política guiam escolhas dos vencedores da Berlinale
A premiação anunciada por Wim Wenders confirmou apostas, trouxe surpresas e foi atravessada por manifestações sobre a guerra em Gaza
O anúncio oficial do Júri ontem, pelo seu presidente Wim Wenders, dos vencedores da 76ª edição do Festival de Cinema de Berlim, causou surpresas, mas não desagradou. Se por um lado a concessão do maior prêmio, o Urso de Ouro, foi dada a um filme que ninguém apontava como favorito, sua escolha também não provocou resistência entre críticos e jornalistas. Trata-se do longa turco “Yellow Letters”, de İlker Çatak, exibido logo no primeiro dia da mostra competitiva.
Já o Urso de Prata ficou com outra produção da Turquia, “Salvation”, de Emin Alper, e o filme mais premiado da noite foi “Queen at Sea”, que levou o Urso de Prata pelo Prêmio do Júri e também foi reconhecido pela Melhor Atuação Coadjuvante com o casal Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay. O Urso de Prata de Melhor Atriz ficou com Sandra Hüller, por “Rose”, confirmação de uma aposta feita aqui na coluna na sexta-feira.
Urso de Prata - Melhor ator coadjuvante foi para o casal de Queen At The Sea.
Surpreendeu o fato de produções dirigidas pelos brasileiros Karim Aïnouz e Beth de Araújo, responsáveis por “Rosebush Prunning” e “Josephine”, respectivamente, não terem sido sequer lembradas. Também causou estranhamento a ausência de prêmios para “The Loneliest Man in Town”, que caiu no gosto de muitos críticos. O filme chama atenção pela trilha sonora, pela fotografia e pelo carisma do protagonista, Al Cook, que interpreta a própria história. Os direitos já foram adquiridos no Brasil pela Autoral Filmes e a estreia está prevista ainda para este ano.
A Berlinale, conhecida por seu perfil cult, diverso e politizado, ganhou novos contornos de embate nesta edição. Logo na abertura, Wim Wenders afirmou que “o cinema deveria permanecer apartado da política”, tentativa de marcar imparcialidade na condução dos trabalhos. Patrocinado por grandes empresas privadas e também pelo governo alemão, que apoia Israel, o festival foi acusado por diretores e produtores de estar ideologicamente comprometido.

Urso de Prata de Melhor Atriz Principal 2026: Sandra Hüller em Rose, de Markus Schleinzer.
Em pleno evento, mais de 80 atores e diretores, entre eles Javier Bardem e Tilda Swinton, assinaram uma declaração coordenada pelo grupo Film Workers for Palestine. A carta pública condenava o silêncio do festival sobre o que classificaram como genocídio dos palestinos e acusava a organização de censurar artistas que se opõem à guerra em Gaza.
Outra polêmica envolveu a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania. Seu filme “A Voz de Hind Rajab” foi anunciado como o longa mais valioso da edição, mas a cineasta rejeitou a homenagem em protesto contra o que considerou omissão do festival diante da guerra na Faixa de Gaza.
A noite de premiação foi marcada por discursos de apoio à Palestina e a outras nações em conflito. Coube à diretora do festival, Tricia Tuttle, tentar apaziguar os ânimos. Segundo ela, a liberdade de expressão na Berlinale comporta muitas vozes, às vezes contraditórias, e um festival não resolve conflitos globais, mas pode criar espaço para a complexidade, a escuta e a humanização mútua.
Tricia Tutle, a diretora da Berlinale.
Confira todos os vencedores:
Urso de Ouro: Yellow Letters, de İlker Çatak, Alemanha, Turquia e França
Urso de Prata – Grande Prêmio do Júri: Salvation, de Emin Alper, Turquia
Urso de Prata – Prêmio do Júri: Queen at Sea, de Lance Hammer, Estados Unidos
Urso de Prata – Melhor Direção: Grant Gee, por Everybody Digs Bill Evans, Reino Unido
Urso de Prata – Melhor Atuação Principal: Sandra Hüller por Rose, de Markus Schleinzer, Áustria
Urso de Prata – Melhor Atuação Coadjuvante: Anna Calder-Marshall e Tom Courtenay por Queen at Sea, de Lance Hammer, Estados Unidos
Urso de Prata – Melhor Roteiro: Geneviève Dulude-de Celles, por Nina Roza, Canadá
Urso de Prata – Contribuição Artística Excepcional: Yo Love is a Rebellious Bird, de Anna Fitch e Banker White, Estados Unidos
Prêmio FIPRESCI Competição: Soumsoum, the Night of the Stars, de Mahamat-Saleh Haroun, Chade
Ainda nesta semana volto a falar aqui dos filmes brasileiros que ganharam destaque nas mostras paralelas da Berlinale.
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Sobre o autor
Karin Verzbickas
Jornalista conhecida por suas resenhas de filmes no Jornal Imagem da Ilha
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