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Hubris — quando a certeza moral se perde na avenida, por Vinicius Lummertz
Uma antiga lição sobre o risco de a cultura afastar-se da complexidade social

Hubris — quando a certeza moral se perde na avenida, por Vinicius Lummertz
A essência do hubris é quando a convicção de superioridade dispensa o esforço de compreender o outro (Charge: Ed Carlos) *** CLIQUE PARA AMPLIAR

Publicado em 22/02/2026

A tragédia grega chamava de hubris a arrogância que nasce da convicção de superioridade moral, a perda de medida que leva indivíduos, elites ou instituições a acreditarem compreender a realidade melhor do que a própria sociedade. O desfile recente da Acadêmicos de Niterói, com sua narrativa política explícita, recolocou essa ideia no centro do debate brasileiro contemporâneo.

Não se trata de questionar a liberdade artística, que deve permanecer ampla e protegida, nem o papel histórico da crítica cultural, essencial às democracias. O ponto é outro. Em certos momentos, a manifestação cultural abandona a ambiguidade simbólica e assume a posição de julgamento moral, revelando a crença de que existe uma leitura superior da sociedade e, com ela, o risco de simplificar o mundo real.

Essa postura não é nova. Democracias também podem gerar formas sutis de conformismo intelectual quando grupos passam a acreditar que representam o espírito do tempo, como Tocqueville observava ao analisar as pressões invisíveis dos consensos morais.

No Brasil, essa matriz consolidou-se a partir dos anos 1970 no ambiente universitário e cultural, formando a chamada inteligência cultural brasileira. Produziu contribuições relevantes, mas também uma inclinação ao pensamento homogêneo, por vezes distante da diversidade concreta da sociedade. Nos últimos anos, dialogou com correntes contemporâneas marcadas por uma lógica de vigilância moral, na qual divergências passam a ser interpretadas menos como diferenças legítimas e mais como sinais de atraso ou inadequação.

O resultado aparece quando teorias passam a ignorar aspirações sociais concretas. A experiência histórica mostrou que, em sociedades abertas, a aspiração dominante não foi abolir a classe média, e sim integrar-se a ela, como observou Raymond Aron.

No Brasil, o sonho social majoritário, frequentemente rotulado como conservador por estar ancorado na família, continua sendo ascender, melhorar de vida e ampliar autonomia. A expansão das igrejas evangélicas e das narrativas de prosperidade reflete, em grande medida, essa busca por mobilidade e reconhecimento, fenômeno que expressa menos uniformidade ideológica do que aspiração social. O equívoco está em não perceber, como lembra Amartya Sen, que essa aspiração é também uma forma de liberdade.

É nesse ponto que a imagem dos “conservadores e neoconservadores enlatados” ganha força simbólica. Ao condensar em caricatura um conjunto amplo e diverso de valores sociais, o desfile transformou milhões de brasileiros em estereótipo, convertendo modos de vida reais em objeto de ironia moral. A fantasia da “família em conserva” funcionou como rastilho de pólvora ao sugerir que valores centrais para grande parte da sociedade seriam apenas resquícios de atraso.

Esse gesto revela a essência da hubris: quando a convicção de superioridade dispensa o esforço de compreender o outro. Ao tratar a classe média e seus valores como categorias suspeitas, parte do discurso cultural deixa de perceber que, para muitos, eles representam não um obstáculo, mas uma conquista.

 

O embate político com personificações e ataques morais na avenida foi sintoma dessa lógica. Em ano eleitoral, a controvérsia tende a extrapolar o campo simbólico e migrar para o terreno jurídico e partidário, reduzindo o espaço do lúdico e da imaginação, territórios onde a cultura encontra sua força.

Essa tensão entre elites culturais e sentimento social não é exclusividade brasileira. Surge sempre que grupos acreditam possuir interpretação definitiva da história e passam a olhar a sociedade mais como objeto de correção do que de compreensão.

 

No fim, a questão talvez seja menos sobre um desfile específico e mais sobre um traço recorrente das sociedades contemporâneas. Sempre que a cultura se aproxima demais da certeza moral e se afasta da escuta da experiência comum, corre o risco de perder a capacidade de representar aquilo que pretende interpretar.

A própria apuração do carnaval pareceu ecoar esse contraste: a Acadêmicos de Niterói acabou rebaixada, enquanto a Viradouro, também da cidade, celebrou a arte ao homenagear o Mestre Ciça com uma narrativa inspirada no imaginário clássico, lembrando que a força do carnaval nasce quando a criação dialoga com a imaginação coletiva.

 

Como lembravam os gregos, a hubris raramente se apresenta como erro. Surge quase sempre como convicção, como certeza de estar do lado correto da história, e é justamente por isso que seus efeitos costumam aparecer apenas quando a distância entre representação e realidade já se tornou visível demais para ser ignorada.

Texto por Vinícius Lummertz

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Sobre o autor

Vinicius Lummertz

Vinicius Lummertz

Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina


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