O que o Brasil quer ser? Nobody knows, por Vinícius Lummertz
Nos esquetes do Saturday Night Live, o comediante Nate Bargatze interpreta um George Washington que responde a perguntas sobre o futuro com absoluta convicção, mesmo quando tudo parece arbitrário.
“De que serão feitas as salsichas?”
Nobody knows.
“Por que o futebol americano será jogado com as mãos?”
Nobody knows.
Sobre pesos e medidas, não pounds, yards, inches, nobody knows. E como se soletrará Fahrenheit, idem, nobody knows.
Na prática, George Washington e os Founding Fathers estavam, sim, sem garantias, construindo o “American Dream”.
Já o humor pode viver na segurança diante do absurdo. Há sempre uma resposta.
No Brasil, o problema é outro.
Quando fazemos a pergunta mais importante, não há resposta.
“O que o Brasil quer ser?”
Nobody knows.
E isso não é falta de capacidade. O Brasil realizou feitos relevantes nas últimas décadas, quase sempre por esforços hercúleos, morro acima. Tornou-se potência agrícola, construiu setores importantes e acumulou reservas internacionais.
Mas o resultado agregado é desconcertante. Quanto crescemos, de fato, nos últimos vinte anos? Já estivemos entre as oito maiores economias do mundo. Hoje orbitamos a décima primeira posição. Não houve colapso, é claro, mas houve perda relativa. Outros avançaram mais porque sabiam onde queriam chegar.
O Brasil não definiu isso. Continuamos como país do futuro.
Queremos ser uma potência agroindustrial completa?
Um líder global em energia limpa?
Uma economia entre as quatro maiores do mundo?
Um país inovador e tecnológico?
Um país de povo desenvolvido e próspero?
Um país digno para todos viverem melhor?
E como fazer isso sem explicitar mudanças e reformas perenes?
Nobody knows.
Sem essa resposta, o país perde direção. O curto prazo deixa de ser meio e vira o próprio fim.
O cientista político Bolívar Lamounier descreveu esse fenômeno como presentismo: uma política capturada pelo imediato, incapaz de organizar o futuro. O Brasil reage, mas não projeta, vai pelas urgências, mas não constrói trajetória clara.
Isso aparece nas vulnerabilidades. Não há como pensar em grandes escalas pensando só no curto prazo, que é o meio da caminhada.
Somos potência agrícola, mas dependentes de fertilizantes.
Temos reservas, mas juros elevados.
Temos escala, mas infraestrutura insuficiente.
Temos base produtiva, mas baixa inovação.
E há um ponto ainda mais sensível: a defesa.
O próprio ministro José Múcio Monteiro tem afirmado que o país investe pouco nas Forças Armadas e enfrenta limitações operacionais. Um país de dimensão continental não estruturou uma política de defesa compatível com seu tamanho.
Mais uma vez, não é falta de diagnóstico. É falta de prioridade.
O contraste internacional é evidente.
Os Founding Fathers, liderados por George Washington, como dito, construíram desde o início uma visão clara do país, associada à ideia de excepcionalidade e ao chamado destino manifesto. Ao longo do tempo, os Estados Unidos também consolidaram uma ampla classe média como base de seu mercado e de sua estabilidade.
A China, por sua vez, estruturou um projeto de longo prazo: de 1949 a 2049, um ciclo de cem anos para se afirmar como potência global, também apoiado na expansão de sua classe média.
O Brasil não construiu equivalente. Não é nosso objetivo nacional explícito. E por que não?
E isso chama atenção, não pela falta de potencial, mas pela ausência de ambição organizada.
Um país de mais de 200 milhões de habitantes, território continental, recursos abundantes e, ainda assim, sem resposta para sua pergunta central.
“O que queremos ser?”
Nobody knows.
Essa talvez seja hoje a maior vulnerabilidade brasileira.
Não a falta de recursos.
Não a falta de talento.
Mas a falta de direção.
Sem direção, decisões não se acumulam, reformas não se sustentam e o país melhora em partes, mas não muda de patamar.
A conclusão é simples.
Um país que não sabe o que quer ser não sabe o que fazer e não tem seu povo executando a promessa coletiva na prática.
O que o Brasil quer ser?
Nobody knows.
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Sobre o autor
Vinicius Lummertz
Ex-Ministro do Turismo, ex-Presidente da Embratur, ex-Secretário de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, ex-Secretário de Articulação Internacional de Santa Catarina
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