A Alice de Carroll e as outras meninas, por Luzia Almeida
Denúncias de violência chegam a quase 17 por hora, segundo dados recentes, revelando um cenário alarmante
“A toca seguia em linha reta como um túnel por um bom trecho; depois, fazia uma descida repentina, tão repentina que Alice não teve a chance de pensar em parar antes de se ver despencando pelo que parecia ser um poço bem fundo”. A personagem Alice da obra “Alice no país das maravilhas” de Lewis Carroll, publicado em 1965, ilustra, de certa forma, várias mulheres que estão caindo, caindo, caindo sem parar.
Se a queda de Alice pode ser considerada fantástica, há hoje no Brasil tantas quedas que, longe da ficção, são trágicas. E entre o fantástico e o trágico verifica-se uma estatística dolorosa e vergonhosa no Brasil pós-moderno. De acordo com a CNN Brasil, “nos primeiros sete meses deste ano, a Central de Atendimento à Mulher, do Ministério da Mulher, contabilizou 86.025 denúncias de violência. Ou seja, 17 denúncias por hora, 409 por dia ”. E aqui, nestes números, não cabem as vozes caladas, as lágrimas escondidas de mulheres que não enfrentam o problema, mas Alice enfrentou. Ela é uma menina corajosa:
“— E eu lá sei? — replicou Alice, surpresa com a própria coragem. — Não é de minha conta.
A rainha ficou escarlate de ódio, e depois de lançar por um instante um olhar de fúria como de uma fera selvagem, gritou:
— Cortem-lhe a cabeça! Cortem...”
A fúria da rainha não alterou os ânimos de Alice. Na Literatura, uma menina pode enfrentar uma rainha e sair ilesa, mas essa questão de enfrentamento está longe da realidade de muitas mulheres que sofrem caladas porque acham que ninguém poderá ajudá-las e esse pensamento errôneo alimenta as estatísticas de violência e de feminicídio no Brasil. E qual seria a resposta para este problema? A solução do problema está na descoberta e na quebra da causa.
Os meninos de hoje serão os homens de amanhã. Como fazer para evitar que os meninos se tornem homens violentos? Esta não é uma pergunta de retórica. É uma pergunta que levanta teses e argumentos. Observe que há uma gradação: meninos, jovens, homens. Se considerarmos que meninos e jovens brincam e se deleitam com jogos, filmes e séries violentos, como poderemos acabar com a violência no Brasil se esta se tornou banal? A violência está presente em quase todos os setores sociais e, também, faz parte do entretenimento nacional. Alguém discorda?
Lutar para acabar com a violência contra as mulheres não é fácil. É necessário estancar as causas. É quase impossível. Não direi que é impossível porque este texto tem uma tonelada de esperança (e alma preventiva) e se acharmos que tudo está acabado e perdido não lutaremos. Não lutar é entregar-se a um Brasil furioso e toda fúria precisa de um adversário à altura.
A personagem de Carroll estava sonhando e acordou com lembranças de seres fantásticos “e de repente se viu deitada na beira do rio, no colo da irmã”. Vamos esquecer Alice e vamos concentrar-nos nos milhões de meninas brasileiras que estão crescendo e precisam de proteção. Meninas que não precisam cair em tocas de coelhos nem em covis de lobos.
Vamos pensar também nos milhões de meninos brasileiros que, agora, estão ligados à violência. Desligá-los é preciso!...
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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