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A descoberta de Gilka Machado, por Luzia Almeida
A força imagética da autora rompe fronteiras do simbolismo e ganha ressignificação contemporânea

A descoberta de Gilka Machado, por Luzia Almeida
Reflexão evidencia o papel de Gilka Machado na renovação estética do simbolismo brasileiro. (Foto: Pixabay)

Publicado em 28/11/2025

Nas páginas do Caderno Azul, eu descobri a Gilka; nas páginas azuis do Enem 2025. E uma descoberta sempre envolve surpresa e a poesia dela surpreendeu-me pela metáfora e pelo talento. Gilka Machado vai além da sinestesia própria dos simbolistas, ela encara a metáfora à luz da lua e entrega uma voz feminina cheia de paixão e dor.

A estética simbolista: muito ligada à “Ismália” de Alphonsus de Guimaraens: “Quando Ismália enlouqueceu, / Pôs-se na torre a sonhar... / Viu uma lua no céu, / Viu outra lua no mar.” e à “Antífona” de Cruz e Sousa: “Ó formas alvas, brancas, formas claras / De luares, de neves, de neblinas! / Ó formas vagas, fluidas, cristalinas... / Incensos dos turíbulos das aras”, foi atravessada por uma poetisa, sim, por uma mulher. Assim como Cecília Meireles rompe de certa forma com a estética modernista a partir de uma poesia intimista, existencialista e universal; Gilka Machado surge no cenário simbolista com visões noturnas e cheias de contornos que se configuram no soneto “Símbolos”.

“Eu e tu, ante a noite e o amplo desdobramento

do mar, fero, a estourar de encontro à rocha nua...

Um símbolo descubro aqui, neste momento

esta rocha, este mar... a minha vida e a tua.”

A partir da metáfora da rocha e do mar, o eu lírico ilustra um relacionamento amoroso “a minha vida e a tua”. Mas, se ela é rocha e ele é mar, temos um duelo de titãs posto que o mar é “fero” (feroz) e a rocha... inabalável! Nesse sentido, ninguém precisa ligar para o 180, precisamos apenas atentar para a musicalidade e para as imagens da segunda estrofe:

“O mar vem, o mar vai, nele há o gesto violento

de quem maltrata e, após, se arrepende e recua.

Como compreendo bem da rocha o sentimento!

São muito iguais, por certo, a minha mágoa e a sua.”

A musicalidade que envolve todo o poema quase põe a perder a violência do mar ao transformar em eufemismo uma ferocidade de que somente uma rocha pode receber. Talvez aqui o verbo receber não seja o mais adequado, mas o recebimento de tamanha violência é compensado no revide que emerge do verso “a minha mágoa e a sua”. E na terceira estrofe temos a metáfora de uma relação marcada por ímpetos e antíteses que lembram muito o Romantismo de Byron:

“Contemplo neste quadro a nossa triste vida;

tu és dúbio mar que, na sua inconsciência,

tem carinhos de amor e fúrias de demência!”

O poema “Símbolos” de Gilka Machado alcançou meus olhos numa manhã de novembro quando minha preocupação era somente uma aula para o Cursinho “Enem Pará”. E, se alcançou meus olhos em meio a tantas questões, alcançou por conta da intrepidez de alguém que, na poesia, se apropria da vida, a vida que é a própria palavra e quem domina a palavra não pode temer absolutamente nada, nem mesmo o mar. Mas... quem é Gilka Machado?

“Eu sou a dor estanque, a dor empedernida,

sou rocha a emergir de um côncavo de areia,

imóvel, muda, isenta e alheia ao mar, alheia.”

 

 

 

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Sobre o autor

Luzia Almeida

Luzia Almeida

Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação


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