Mais que Dois, por Denise Evangelista
Reflexões conectam história individual, social e responsabilidade coletiva
Precisamos de algo mais do que nós mesmos para suportarmos a vida. E precisamos dar direção ao sofrimento para não sucumbirmos. O versículo “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a Terra”, do Evangelho de Mateus, abre a peça O Motociclista no Globo da Morte, de Leonardo Netto. Com a direção de Rodrigo Portella, estreou no Rio de Janeiro em setembro e já é sucesso de público. Quem acompanha o ator Eduardo Moscovis, nas redes, percebe que os elogios vão muito além dos costumeiros e são dirigidos tanto ao ator quanto ao texto por ele interpretado. A peça propõe uma reflexão sobre a natureza humana e levanta muitos questionamentos sobre a violência, como parte constituinte da nossa espécie.
Os mansos, do versículo de Mateus, eu imagino, são aqueles que não são violentos. Os mansos são os pacíficos e os pacificadores. Provavelmente, parte deles são aqueles que sonham com uma terra sem violência, sonham e acreditam e, por isso, vivem. E há os violentos. Há também aqueles que nunca tendo sido violentos podem cometer violências. Todos nós, seres humanos.
Embora tenhamos uma tendência para pensar que ou somos violentos ou somos mansos, em nós coexistem sentimentos e potencialidades. Nossa subjetividade é constituída por toda essa complexidade que é o nosso tempo histórico. Dessa relação entre o indivíduo e o seu meio, com história, crenças, organização social, costumes, saberes e não-saberes, manifestam-se formas diferentes de ser no mundo. Nosso organismo, misturado às nossas vivências, vai acentuar certas características, compondo aquilo que vamos chamar de personalidade. Assim, também, novas circunstâncias poderão fazer aflorar partes menos óbvias.
No texto O Motociclista no Globo da Morte há inúmeros exemplos de violência que parece sempre ter existido, e que nunca cessará. A violência é uma força circular. Normalmente vem de fora, invade o nosso espaço existencial e como uma semente provoca repercussões. Tem muitas faces. Há a violência do machismo com suas muitas gradações, a violência da mentira que desnorteia os crentes, a violência da omissão, a violência daquele que traga os esforços dos outros em benefício próprio, a violência contra si mesmo, a violência de Estado e tantas outras. Veladas ou explícitas, escondidas dentro das casas ou nas ruas, admitidas ou repelidas, todas elas alteram o nosso funcionamento saudável. O sofrimento gerado pela violência faz brotar patologias de toda ordem. Quanto mais vulnerável é um “corpo”, uma população, uma comunidade, vítimas da opressão e da negligência, maiores serão as feridas e os seus desdobramentos.
Potencialmente, a violência está em todos nós, latente ou em ação, visível ou dissimulada. Ela nos afeta e nos provoca. Entretanto, se descobrirmos suas raízes, mais condições teremos de não alimentá-la e em alguns casos, de debelá-la. Especialmente se imprimirmos, com maior clareza, um sentido ao sofrimento, numa direção que não gere ainda mais sofrimento. Assim como, se tivermos uma hierarquia de princípios que estruture, da maneira mais coerente possível, nosso discernimento diante da realidade.
Comecei esse texto dizendo que precisamos de algo mais que nós mesmos para suportar a vida. Precisamos de tudo que potencialize uma outra força, também circular, que igualmente gera repercussões e deixa marcas. Uma força que coexiste em nós, mas que diferente da violência não provoca dor, medo, não fere, não subtrai e não desnorteia ninguém, ao contrário, dá segurança, nutre, cura. E que todos sabemos qual é. Precisamos estimular e cuidar do que há, além de nós mesmos, do “entre nós”.
Na década de 80, do século passado, vivemos o auge da crença de que precisávamos nos preparar e preparar nossos filhos para que fôssemos competitivos. Essa era a premissa diante do crescimento do neoliberalismo. Acabamos desembocando num aumento da desigualdade, criando uma população sem perspectiva ou direção existencial. Formamos exércitos de indivíduos contra indivíduos preocupados em performar da melhor maneira possível. Estamos diante da centralidade do capital, mas hoje mudando a direção para outro paradigma, por compreendermos que só a cooperação, o diálogo, o respeito entre indivíduos, grupos e nações poderão evitar a guerra e debelar as causas das convulsões sociais. As relações de exploração entre os homens e entre os homens e o meio ambiente fomentaram o colapso que vivemos hoje e que ameaça a sobrevivência de todos nós.
Aprender com a nossa história — individual e coletiva —, compreender as causas das violências e patologias geradas a partir delas, desenvolvendo e criando políticas públicas, nos dará condições de alterarmos o nosso futuro e de sermos suporte para a vida, para que alguém, então, possa herdar a Terra. Como diz Beto Guedes, na sua canção que foi sucesso nos anos 80, O Sal da Terra, “quero te dizer nenhum segredo (...) vamos precisar de todo mundo, um mais um é sempre mais que dois”.
Denise Evangelista Vieira
Agradeço a Leonardo Netto, autor da peça O Motociclista no Globo da Morte, por ter me enviado, gentilmente, o texto.
Caso você queira entrar em contato com a Denise, mande uma mensagem para deevavi.psicoterapeuta@gmail.com.
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Sobre o autor
Denise Evangelista Vieira
Psicóloga formada pela UFSC e em Artes Cênicas pela Udesc. Escreve sobre o universo humano. Quem somos e em quem podemos nos tornar? CRP 12/05019.
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