Promessa para janeiro alimenta ciclos de desistência
Especialista explica por que o corpo não responde a datas e sim a estímulos constantes
Depois das festas eu começo! Essa frase parece inofensiva, quase lógica. Afinal, dezembro é um mês atípico: confraternizações, viagens, rotina desorganizada, alimentação fora do padrão e familiares em casa. Adiar o início do cuidado com a saúde para janeiro soa como uma decisão racional. “Mas, na prática, essa é uma das frases que mais alimentam o ciclo do fracasso quando o assunto é saúde, exercício físico e mudanças de hábitos, especialmente depois dos 40 anos”, alerta o professor Igor Conterato, profissional de Educação Física e doutor em Saúde Pública pela USP.
O primeiro problema dessa ideia é simples: é criar uma falsa linha de largada, como se o corpo funcionasse por datas comemorativas, como se janeiro tivesse algum poder especial que dezembro não tem. O corpo não entende calendário, porém entende estímulos e sempre responde melhor quando estes começam agora, mesmo que pequenos. “O segundo problema é psicológico. Quando a pessoa diz que vai começar ‘depois’, ela se autoriza a exagerar ‘antes’. Come mais do que o habitual, se movimenta menos e ignora qualquer sinal de cuidado com o corpo, porque existe a promessa de que tudo começará no próximo mês, e esse ‘eu’ de agora nunca mais será o mesmo”, observa Conterato.
O problema é que janeiro chega e o corpo já está cansado, mais pesado, menos disposto, com mais dores e menos energia. A expectativa é alta, porém a condição física não acompanha essa empolgação. O resultado é previsível: tentativas intensas nas primeiras semanas, seguidas de frustração e abandono.
Esse ciclo se repete ano após ano: promessa em dezembro, esforço exagerado em janeiro, desistência em fevereiro — ou em janeiro mesmo — e culpa até o próximo fim de ano. Depois dos 40, esse padrão cobra um preço maior. O corpo precisa de mais tempo para se adaptar, recuperar e responder aos estímulos. Por isso, exigir mudanças bruscas, treinos longos ou rotinas rígidas logo no início só aumenta o risco de dores, lesões e desmotivação, e o caminho acaba na desistência.
Existe uma alternativa muito mais eficiente — e muito menos glamourosa: não esperar o momento perfeito. Evitar o fracasso de janeiro não significa ignorar as festas ou viver em restrição. Significa manter o mínimo de constância. Realizar treinos simples e curtos durante a semana, fazer movimentos básicos com regularidade e não agir como se fosse o último fim de ano da vida quando o assunto é alimentação e consumo de álcool. Comece com o mínimo possível e estabeleça, com seu professor ou personal, a progressão do treino.
Quando janeiro chega e o corpo já está em movimento, tudo muda. A disposição é maior, a adaptação é melhor e a chance de manter o hábito aumenta consideravelmente. A mudança deixa de ser um choque e passa a ser uma continuidade. “Saúde não começa em janeiro. Começa quando a decisão deixa de ser adiada. Talvez o maior erro não seja exagerar nas festas, mas sim acreditar que existe um mês mágico que conserta tudo depois. O que constrói resultados reais não é a data no calendário, mas o que se faz de forma consistente, mesmo quando a rotina não é perfeita. E, muitas vezes, o melhor jeito de quebrar o ciclo do fracasso de janeiro é simples: não esperar janeiro para começar”, finaliza Igor.
Da redação
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