Sem medo de ser feliz, por Luzia Almeida
A autora convida o leitor a repensar o conceito de felicidade e a enxergá-la na simplicidade do cotidiano
O que significa ser feliz? Eis uma pergunta recheada de Filosofia que somente a Literatura pode responder. A felicidade é tão polissêmica que para alguns significa apenas dormir e para outros escrever. E a enumeração continua: um carro novo, aumento salarial, casa na praia, saúde, relacionamento estável, muita grana... a felicidade não é igual para todos, porque cada pessoa tem um entendimento diferente (sobre felicidade) e vive diferente e sonha diferente. Eu não saberia dizer com certeza se poderia ser totalmente feliz nesta terra, desconfio que não, mas insisto em escrever e isto para mim é morar em Arcádia.
Ser feliz se descobre de repente, como se de repente víssemos um pássaro azul!... Ou outro azul como viu Drummond na “Lagoa”: “Eu não vi o mar. / Não sei se o mar é bonito, / não sei se ele é bravo. / O mar não me importa. / Eu vi a lagoa. / A lagoa, sim. A lagoa é grande / e calma também”. A felicidade está na descoberta que se faz ou na escolha: o poeta escolheu a lagoa e tinha motivos porque “Na chuva de cores / da tarde que explode / a lagoa brilha / a lagoa se pinta / de todas as cores”. Saber escolher também tem a ver com inteligência emocional, algo difícil de explicar, mas podemos entender porque fazemos escolhas felizes e infelizes constantemente. Às vezes, primeiro escolhemos e depois ponderamos sobre a escolha... a encomenda chega e já estamos arrependidos... impossível devolver. Isso porque “uma parte de mim / pesa, pondera; / outra parte / delira”; não podemos escolher no delírio.
Ser feliz se descobre de repente no apoio que temos da pessoa amiga, no sorriso verdadeiro, no abraço fraterno que significa “eu te amo”. Amar é além da palavra e nenhum texto pode defini-lo. O amor é imaterial, é da alma; ajusta-se no companheirismo, na dedicação, na responsabilidade, no altruísmo, na empatia... ver o próximo carente, todo arruinado e mudar um pouco essa história: essa tarefa não é para amadores. A felicidade precisa ser entendida a partir da coletividade: uma flor sozinha não faz jardim e vivemos numa seca emocional de deserto e as flores de que o mundo precisa somos nós mesmos. Nós somos flores, nós que amamos a vida.
Ser flor é ser feliz, embora sua efemeridade seja patente, mas tudo passa nessa vida. É melhor ser flor do que ser pedra no caminho; por isso que escrevo: eu escrevo porque “o instante existe / e a minha vida está completa”. Os motivos para escrever acompanham-me desde a adolescência e continuam na atualidade. Escrever é um tipo de catarse. É um lampejo de alegria que a subjetividade me permite a partir de construções poéticas que estão (muitas vezes) escondidas de mim mesma. E sou feliz e não preciso de mais nada.
Poder escrever é ter poder... um tipo de crédito sem limites, uma Arcádia. É maior que a redondeza da Terra e mais doce que o canto dos pássaros, dos pássaros azuis.
Escrever é voar, mesmo com os pés no chão.
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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