Um poema por dia, por Luzia Almeida
A força da poesia aparece como abrigo, espelho e tradução de emoções que a prosa cotidiana não expressa
Já li muitos poemas na vida e cada um tem o seu próprio encantamento. Os poemas são casas ou lares onde podemos nos abrigar, fora isso, o resto são palavras que se ajustam numa ordem prática e funcional cedendo suas almas poéticas a uma necessidade social que é a comunicação pura e simples, sem arrebatamento.
O poema “Motivo” de Cecília Meireles, por exemplo, ajusta-se ao “canto porque o instante existe” e é uma das variações de “Traduzir-se” de Ferreira Gullar: “Uma parte de mim / é todo mundo: / outra parte é ninguém: / fundo sem fundo”. As variações de sentidos apresentadas pelos poetas provam que existe um sistema humano complexo de ser e de existir e as palavras são os únicos instrumentos capazes, unidas às lágrimas e aos sorrisos, de configurar perfis daquilo que somos e daquilo que sentimos. Ela diz: “Se desmorono ou se edifico, / se permaneço ou me desfaço, / — não sei, não sei. Não sei se fico / ou passo” e ele completa: “Uma parte de mim / é permanente: / outra parte / se sabe de repente”. Essa complexidade, apresentada pelos autores, espelha a condição humana e é a prova de que precisamos de poesia. Precisamos entender quem somos.
Ah!... São muitos os poemas, fazem festas nos nossos olhos, alguns temáticos de ternuras afins... Outros traduzem pertencimento à terra, como o poema “Rio Vermelho” de Cora Coralina: “Longe do Rio Vermelho, / Fora da Serra Dourada, / Distante dessa cidade, / não sou nada, minha gente.” e, fazendo par com esse eu lírico, lembramo-nos de uma canção que, de certa forma, acompanha-nos no decorrer da existência: “Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá; / As aves, que aqui gorjeiam não gorjeiam, / Não gorjeiam como lá”: o exílio de Gonçalves Dias abraça o encantamento do rio de Cora Coralina numa forma inescapável de saudade.
E há também poemas infiltrados em crônicas, como se observam nos textos de Rubem Braga: “E pouco a pouco ele foi sentindo uma paz naquele começo de escuridão, sentiu vontade de deitar e dormir entre a erva úmida, de se tornar um confuso ser vegetal, num grande sossego, farto de terra e de água; ficaria verde, emitiria raízes e folhas, seu tronco seria um tronco escuro, grosso, seus ramos formariam copa densa, e ele seria, sem angústia nem amor, sem desejo nem tristeza, forte, quieto, imóvel, feliz.”. Esta crônica nos convence de maneira poética sobre os benefícios da natureza e outra convence-nos de que não basta ter olhos, é preciso aprender a ver: “Da minha janela vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos alegres e humildes [...], espumas são leves, não são feitas de nada, toda a sua substância é água e vento e luz”. Ah!... esses poemas infiltrados!...
Todos os poemas brilham e há poetas que conversam com as estrelas, como o Bilac: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo, / Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, / Que, para ouvi-las, muita vez desperto / E abro as janelas, pálido de espanto... / E conversamos toda a noite, enquanto / A via-láctea, como um pálio aberto, / Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, / Inda as procuro pelo céu deserto”. Sim, não há poesia sem estrelas, mas a ausência delas ainda supera o encantamento. É paradoxal!
É verdade... Nem todo o dia há estrelas no céu, mas sempre é céu!...
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Sobre o autor
Luzia Almeida
Luzia Almeida é professora, escritora e mestra em Comunicação
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