Ceia do Papai Noel brasileiro, por André Vasconcelos
Os roteiristas de cinema não cansam de dar novas interpretações ao Natal. Algumas melosas demais, onde o velho rico e poderoso é desalmado e faz tudo pelo vil metal, não tomando conhecimento da dor dos menos abastados. O mais clássico destes contos de Natal é o do velho Scrooge, um personagem rabugento do romance de Charles Dickens e interpretado por Jim Carrey.
Alguns desses déspotas de roteiros fictícios são aclamados como se fossem bons samaritanos: ajudam velhinhas, beijam criancinhas, dão comida a pobres, tudo para disfarçar a sua maldade e oportunismo... não, não estou me referindo a políticos de um país gigante pela própria natureza perdido na América do Sul... são personagens de filmes melosos de Natal.
Mais apelativos que filmes de Natal, são os especiais das séries: de Jetsons à Simpsons, de Jeanne é um Gênio à Feiticeira, e até Flinstones, que viviam na época dos sem-Cristo, na pré-história, têm especial de Natal. Só falta os sem-calendário de Lost terem um episódio de Natal.
Pobre Natal!!!!!! Não só nos filmes tomamos uma overdose de Papai Noel. Pobre velhinho!!!! Por que será que vestem o velhinho de veludo vermelho em um país tropical? Não está na hora de uma revolução cultural no nosso Natal?
Porque não o Papai Noel, velhinho sarado, bermuda florida, camiseta regata e rindo em um alegre “quasquasquas” ao invés do travado “houhouhou”? Seria um ótimo velhinho-propaganda das sandálias “havaianas”! Importamos cultura tão levianamente, e sem a preocupação de adaptá-la ao nosso clima e forma de viver, que aos poucos estamos perdendo o Brasil original.
Qual é a nossa ceia do Papai Noel? Comecemos pelo clássico peru, em geral, à Califórnia. Pobre peru: nasceu, viveu e morreu em Chapecó, Seara ou Concórdia, e na sua derradeira apresentação o enfeitam com figos da Turquia, pêssegos da Argentina, cerejas da França, fios de ovos de Portugal e o chamam de Peru à Califórnia!
E o mais difícil para preparar um perú com sabor original, é encontrar a nobre ave, aonde quer que seja, sem tempero… será que ele é temperado desde o nascimento , um pequeno peruzinho, com a ração de ervas secas com sabor de mofo e glutamato monossódico?? Como substituir esse ícone confuso-americano?
A capote me parece uma boa opção. Essa ave trazida pelos navegadores portugueses, tão presente na culinária nordestina, fará um belo papel na mesa do Papai Noel brasileiro. À tempo: capote é galinha d’Angola, a pintade francesa, a gallina faraona italiana, a gallina de Guinea espanhola, enfim, aquela que grita “tô fraco”.
Fazê-la aos pedaços, selados um a um depois de temperado com muito alho, coloca-los depois em um cozido com tomates e ervas, engrossado com mandioca e servida com rodelas de banana-da-terra bem fritinha, e chips da mesma mandioca. É uma opção rica de sabores, texturas e brasilidade!
Chester? Frangão? Royale? Que bichos são esses na ceia? Mais vale preparar uma galinha velha cozida por horas com temperos e sabores das hortas de quintal!!!
Vez por outra, falo de bacalhau no Natal e os sulistas reviram os olhos de pavor! Mas, para mim, bacalhau tem mais cara de Natal que Papai Noel! E não precisa ser o bacalhau da Noruega ou do Porto. Pode ser um peixe seco, presente em vários recantos brasileiros, demolhado e cozido, separado em lascas grandes e refogado com grandes nacos de cebolas, triângulos de tomates sem pele, muito cheiro verde e misturado ao arroz cozido ao dente: temos o arroz de “bacalhau”.
O toque especial pode vir da castanha do Pará picada e torrada salpicada no prato. Peixes gordurosos se prestam a ser salgados e secos, como o pirarucu, a garoupa ou a abrótea. Todos fazem belo papel nessa bacalhoada cover.
Até a catarinense tainha escalada pode ocupar lugar de honra na nossa ceia quando assada com sementes de aroeira maceradas no azeite e servida ao lado de uma farofa de suas ovas secas, que quando chamada de bottarga torna-se nobre, mas é a mesma ova de tainha pescada na praia da Joaquina.
É normal termos como referência pratos dos colonizadores, como a bacalhoada, a rabanada e o bolo de Reis, afinal, eles foram nossos primeiros “educadores”. Em 1.500 os nossos índios não tinham a menor idéia de quem era Cristo e muito menos porque tínhamos que comemorar a data do aniversário de um barbudo que havia nascido e morrido na cruz há tanto tempo.
Os jesuítas trataram de ensiná-los e provavelmente fazê-los esquecer de seus hábitos e alimentos rudimentares ... aos olhos preconceituosos deles. Nessa primeira etapa da colonização perdemos muito da nossa cultura gastronômica e, a partir daí, adotamos a comida dos colonizadores, dos invasores, dos imigrantes, dos desterrados, dos exilados e de toda sorte de gente que veio tentar a vida no novo continente!
Nesse “saco de gato” veio também o São Nicolau, ou Santa Claus, ou Papai Noel! Conta a lenda que um bispo turco, Nicolau, que por volta do ano de 280, deixava saquinhos de moedas aos pobres na época do Natal. Esse bom velhinho virou um ícone do Natal, a princípio na Alemanha, depois em toda Europa, sempre desenhado com roupas de inverno marrom!
Isso mesmo: marrom!!!! A culpa do Papai Noel usar roupas vermelhas, com gorro de pompom branco, é de publicitários americanos e não de comunistas vermelhos. O velho Noel passou a se vestir assim em 1881, quando foi apresentado com as cores do rótulo de uma bebida refrescante e curativa em campanha publicitária veiculada em toda América: a bebida era o refrigerante coca-cola!
Papai Noel foi velhinho-propaganda da Coca-Cola! E virou mania e ao lado do refrigerante é unanimidade mundial!
Independente de onde venha o Papai Noel e que cores ou roupas ele vista, estamos no mês que é Natal! Não importa se a data é mais comercial que religiosa, o importante é que é Natal! E esse nó no peito estranho: será stress ou emoção? Sei lá, acho que é Natal, e enquanto não tivermos um Natal com cara de Brasil, podemos resgatar o que há de bom na cozinha tupiniquim, na nossa cozinha de raiz e inserir numa ceia tropical, cheia de brasilidade… e não pode faltar farofa!
Feliz Natal aos colonizadores, aos brasileiros e a todos que amam o Natal!!!! E bom apetite!!!!!!
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Sobre o autor
André Vasconcelos
Cozinheiro raiz e autodidata, hoje no comando de sua Cozinha Singular Eventos e d'O Vilarejo Hospedaria e Gastronomia, onde insumos e técnicas são a base de cardápios originais e exclusivos... e aprendiz de escritor também!
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