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Corpinnat: A Rebelião Silenciosa do Penedès
Produtores se unem para resgatar o potencial de uma região que cedeu a própria reputação ao volume e ao preço

Corpinnat: A Rebelião Silenciosa do Penedès
Com forte diversidade de solos e altitudes, o Penedès sempre teve potencial para produzir espumantes de alto nível. A valorização de castas locais, como a Xarel·lo, e o foco no terroir passam a ganhar protagonismo em uma nova fase da vitivinicultura catalã. (Foto: www.recaredo.com)

Publicado em 02/04/2026

Existe um paradoxo curioso no mundo do vinho espanhol. O Cava, espumante nascido nas colinas do Penedès, a menos de uma hora de Barcelona, foi por décadas o grande embaixador das borbulhas ibéricas. Uma categoria que chegou a representar quase 250 milhões de garrafas por ano. Números que deveriam ser motivo de orgulho. E são, para quem vende vinho como se vende coca-cola.

Para os que acreditam na uva, na paciência, na mão humana, enfim, no terroir, esses números foram a queda. Porque o Cava não é apenas um método. É uma denominação com regras que foram cedendo à pressão comercial com uma generosidade preocupante. Uvas colhidas mecanicamente. Castas internacionais permitidas numa região com rica diversidade. Estágio mínimo de apenas nove meses. Origem das uvas praticamente irrestrita. O resultado é um mar de espumantes sem identidade, produzidos em escala industrial, onde a marca vale mais do que o líquido e o terroir. O Cava virou commodity, tanto que se tornou multi-regional.

Mas o Penedès sempre teve outra história para contar.

Encravado entre o Mediterrâneo e as encostas da cordilheira catalã, o Penedès é um mosaico de climas e solos com espetacular diversidade. No Baix Penedès, próximo ao mar, solos argilo-calcários e influência marítima clara. Conforme se sobe em direção ao Alt Penedès e ao Penedès Superior, vinhedos entre 200 e 800 metros de altitude, noites frescas, amplitudes térmicas expressivas, solos calcários e também graníticos onde a acidez se preserva naturalmente. É exatamente aqui que cresce a Xarel·lo, a grande casta branca autóctone da região. Por muito tempo desenhada como rústica e oxidativa, a Xarel·lo sempre foi incompreendida e menos chique que as famosas francesas. Vinificada com cuidado, revela acidez precisa, textura mineral e uma capacidade de envelhecimento que envergonha brancos de fama e preço muito maior.

Se em 1910, produtores do Rheingau criaram o VDP alemão por frustração semelhante: as leis privilegiavam o açúcar da uva em detrimento do terroir. Ao criar sua própria hierarquia, com exigências severas de origem e produção, o VDP transformou a percepção dos vinhos alemães para sempre. Em 2017, um grupo de produtores do coração do Penedès fez a mesma escolha. Fundaram o Corpinnat, associação com regras que a DO Cava não tinha coragem de impor: produção 100% orgânica ou biodinâmica, uvas exclusivamente dos próprios vinhedos, vinificação na propriedade, colheita manual, método tradicional com estágio mínimo de 18 meses. Cada exigência é uma declaração de qualidade e valor ao terroir. O nome vem do catalão: coração do Penedès.

Se existe um nome que personifica o Corpinnat, esse nome é Recaredo. Fundada em 1924 em Sant Sadurní d'Anoia, a casa foi pioneira nos primeiros espumantes completamente secos do Penedès, no uso de barricas quando toda a região fermentava em inox, e na defesa do envelhecimento prolongado quando o mercado queria velocidade. Em 2010, tornou-se a primeira adega certificada em biodinâmica no Penedès. Trabalha apenas com uvas próprias, em secano, sem irrigação. A segunda fermentação é iniciada com mosto da própria uva, não açúcar comercial. A rémuage é feita manualmente, garrafa a garrafa, nos pupitres tradicionais. O dégorgement dispensa o congelamento do gargalo, técnica industrial que a casa rejeita por alterar a temperatura interna de um vinho que passou anos em evolução lenta. Alguém ainda gira cada garrafa com as mãos. Alguém ainda expulsa o sedimento com um gesto preciso, sem atalhos e mantendo habilidades antigas ainda vivas. Métodos e cuidados que deixam a maioria dos grandes champagnes com inveja.

O Corpinnat prova que o Penedès tem solos, altitude, castas e tradição para produzir alguns dos grandes espumantes do mundo. A única coisa que impedia isso eram as próprias regras. Ao criar as suas, esses produtores fizeram o que sempre foi necessário quando as leis protegem o volume e não a qualidade.

 

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Sobre o autor

Eduardo Machado Araujo

Eduardo Machado Araujo

Certified Sommelier - Court of Master Sommeliers


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