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Casamento infeliz não precisa chegar ao limite para acabar
Psicoterapeuta explica por que tantas mulheres sentem que precisam de uma traição ou humilhação para justificar o fim de um relacionamento

Casamento infeliz não precisa chegar ao limite para acabar
Muitas mulheres acreditam que precisam de uma traição, uma humilhação ou um episódio extremo para justificar o fim de um casamento. (Foto: Freepik)

Publicado em 06/11/2026

“Se ele me traísse, eu teria um motivo para ir embora.” A frase, segundo a psicoterapeuta Nilda Lima, traduz um conflito recorrente entre mulheres que vivem relacionamentos desgastantes: embora reconheçam a própria infelicidade, muitas acreditam que precisam de um acontecimento grave para justificar o fim do casamento.

Algumas esperam uma traição, outras uma nova humilhação. Há também aquelas que desejam que o marido tome a iniciativa de terminar a relação, evitando, assim, o sentimento de culpa pela separação. Por trás desse comportamento, existe uma dificuldade de reconhecer que o próprio sofrimento pode ser motivo suficiente para repensar a vida a dois.

Um casamento não precisa chegar a uma situação extrema para que seus problemas sejam considerados. A solidão dentro da relação, a desvalorização constante e a falta de espaço para expressar a própria individualidade são experiências que merecem atenção. Para Nilda, reconhecer esse sofrimento não significa decidir imediatamente pela separação, mas começar a escutar aquilo que vem sendo silenciado.

Quando a mulher deixa de reconhecer os próprios desejos

Em sua experiência no atendimento a mulheres, a psicoterapeuta observa que algumas conseguem descrever detalhadamente os desejos e as preferências dos parceiros, mas encontram dificuldade quando precisam falar de si mesmas. Sabem o que o marido gosta, o que espera, o que o irrita e como prefere que a casa funcione, mas nem sempre conseguem responder a perguntas simples sobre a própria vida.

“Quando pergunto sobre os próprios desejos, a resposta pode demorar. O que você quer para sua vida? Do que sente falta? O que considera indispensável em uma relação?”, relata.

Segundo a profissional, esse afastamento da própria identidade pode acontecer gradualmente, quando a rotina passa a ser organizada quase exclusivamente em torno das necessidades do outro. Projetos pessoais são adiados, interesses perdem espaço e decisões passam a depender da aprovação do parceiro. A mulher continua cumprindo suas responsabilidades, mas encontra cada vez menos oportunidades de reconhecer suas próprias vontades.

Nesse cenário, estabelecer limites também pode despertar culpa. Expressar que determinada atitude machuca ou que não deseja continuar vivendo daquela maneira parece exigir uma justificativa. É como se a percepção da própria infelicidade não tivesse legitimidade suficiente. A traição ou uma agressão mais evidente acabam sendo vistas como uma espécie de autorização para tomar uma decisão.

Ser responsável não significa ser um bom companheiro

Outro aspecto destacado por Nilda é a diferença entre cumprir responsabilidades e oferecer uma relação emocionalmente saudável. Um homem pode ser trabalhador, contribuir financeiramente e ser dedicado aos próprios objetivos, mas, ainda assim, desconsiderar as necessidades emocionais da companheira.

Para avaliar a qualidade de uma relação, é necessário observar outros aspectos: existe respeito pelas escolhas da mulher? Há interesse pelos projetos dela? Ela tem liberdade para discordar, expressar opiniões e fazer planos próprios?

A valorização do trabalho doméstico e da dedicação à família também não deve ser confundida com o reconhecimento da individualidade. A mulher precisa ser enxergada para além das tarefas que desempenha e do bem-estar que proporciona aos demais. Seus sonhos, seu descanso, sua vida profissional e seus vínculos pessoais também precisam ter espaço.

Reconstruir a autonomia exige apoio

A psicoterapeuta ressalta que nem todo casamento infeliz é necessariamente abusivo e que permanecer em uma relação não significa concordar com tudo o que acontece nela. Questões financeiras, responsabilidades com os filhos, isolamento, ameaças e falta de uma rede de apoio podem limitar as possibilidades de escolha.

Por isso, questionar simplesmente por que uma mulher não termina o relacionamento pode ignorar as condições concretas em que ela vive. Em determinadas situações, a decisão envolve não apenas sentimentos, mas também segurança, estrutura financeira e proteção dos filhos.

Nilda defende que a reconstrução da autonomia comece por movimentos possíveis, como retomar vínculos de confiança, reconhecer as próprias necessidades, buscar apoio e compreender quais condições seriam necessárias para tomar decisões com segurança. Quando há violência, ameaças ou controle, a proteção deve ser prioridade.

Antes de decidir se deseja permanecer ou sair de um casamento, uma mulher pode precisar recuperar a confiança na própria percepção. Identificar o que sente, reconhecer seus valores e compreender o que considera inegociável são passos importantes para avaliar a relação.

Não é preciso esperar uma traição, uma nova humilhação ou um episódio extremo para reconhecer que algo não vai bem. O sofrimento também merece ser levado a sério. E talvez a pergunta mais importante não seja quanto ainda é preciso suportar, mas o que essa mulher deseja para a própria vida.

 

 

 

Da redação

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